A Sangue Frio, de Truman Capote

   A Sangue Frio é a obra-prima de Truman Capote. O relato, batizado pelo autor de “romance de não-ficção”, segue o desenrolar dos acontecimentos do dia 15 de novembro de 1959 na casa dos Clutter, desde o último dia de vida de Bonnie, Herb, Nancy e Kenyon Clutter até a execução dos dois assassinos. A rica família do interior do Kansas fora amarrada, amordaçada e executada com um tiro na cabeça de cada um, sem motivo aparente. O mistério envolveu os 270 habitantes da cidade de Holcomb em fofocas e medo durante anos: nunca antes algo tão grande havia ocorrido ali. Ainda assim, nos grandes jornais americanos a história não passara de uma nota. Os inspirados olhos de Capote, porém, encontraram uma notícia de apenas 300 caracteres no The New York Times e enxergaram um potencial que só ele podia entender. Alguns dias depois, partiu para Holcomb, Kansas, e começou os seus trabalhos.

Segundo Capote, foram mais de oito mil páginas de dados extraídos de entrevistas, todas realizadas sem gravador ou bloco de notas para evitar assustar os entrevistados. De todo o conteúdo apurado, apenas 20% foram utilizados. O resultado é uma narrativa envolvente e bem romantizada. A medida que as vítimas são apresentadas, quantidade igual de páginas é gasta com as histórias dos assassinos. Tão chocante quanto a morte de inocentes é a humanização de seus executores. A vida pregressa de Perry Smith, principalmente, é contada detalhadamente e a partir do seu próprio ponto de vista, o que leva à pergunta: como Capote extraia certas informações? O relacionamento íntimo do autor com Perry enquanto este esperava no corredor da morte certamente compromete a imparcialidade e moralidade da obtenção das informações. Fontes usadas no livro declararam que seus relatos não foram usados fielmente, e que Capote inclusive inventara cenas inteiras. A fama de Capote de mentiroso também não ajuda. Todas essas dúvidas não chegam a diminuir o brilho de A Sangue Frio, mas fazem o leitor questionar se Truman Capote não seria um romancista acima de jornalista.

Introdução a Os Miseráveis

Enquanto sobre a terra houver ignorância e miséria, livros como este não serão inúteis.”

Victor Hugo foi um homem com percepção social muito a frente de seu tempo. Enquanto os romances contemporâneos ignoravam a existência dos marginalizados, Os Miseráveis faz questão de ilustrar toda a amplitude social: dos reis até as prostitutas, dos benfeitores até os ladrões, dos monarquistas até os republicanos. Concebido antes de 1848 e publicado em 1862, o romance assume a França do século XIX por inteira.

DIGRESSÕES

Os Miseráveis mistura ensaio e romance, muitas vezes interrompendo o fluxo dos acontecimentos para que Hugo discorra sobre suas visões religiosas e políticas. Um leitor entediado afirma na internet que 955 páginas das 2 783 da sua edição são de ensaios, aproximadamente um quarto da obra. Algumas vezes, o autor fala de suas próprias experiências, depois se desculpando por ter inserido a primeira pessoa na história. Mas ele não se acanha e repete o feito; logo depois se desculpa.

Também acontece de se perder nos seus personagens. Por exemplo, o livro começa: “Em 1815…”, e então “embora este detalhe não mude, de forma alguma, o cerne do que temos a contar, talvez não seja inútil […] citar aqui os diversos boatos…”. Seguem-se aproximadamente sessenta páginas do dito detalhe, descrevendo o bispo de Digne, para que, catorze capítulos depois, quando o leitor já havia se esquecido, ele retome os acontecimentos de 1815.

Mas como disse o biografista Lippincott, “as digressões de um gênio são facilmente perdoadas”. Pode parecer que eu testemunho contra Os Miseráveis, mas não, pois é exatamente aí que reside o encanto: em se deixar perder, eventualmente.

DEUS EX MACHINA

Fica claro que Hugo prefere a significância em relação a verossimilhança, como Flaubert e Baudeleire não puderam deixar de, maldosamente, apontar. Cada personagem representa uma característica humana, com exceção talvez de Jean Valjean e seu vazio (ou será ele a maior caricatura de todos?). Mas cada um deles é franco e, talvez, o leitor, ao invés de se identificar com um deles, se identifique com todos, cada um formando uma parte da psique humana.

De jeito semelhante, o autor não hesita em se utilizar de coincidências exageradas, deus ex machina. Guy Rosa disse que “sua inverossimilhança faz sorrir e sua necessidade faz pensar”. A trama serve ao motivo, e não o contrário. Se um personagem tiver que ser jogado em direção ao outro, que seja. Os Miseráveis é, acima de tudo, um livro político.

SUBCONSCIENTE

Hugo parece ter uma intuição para as vontades inexplicadas, fazendo bonitas descrições do que apenas mais tarde seria formalizado pela psicanálise. Na segunda parte, livro três, Cosette é obrigada a ir buscar água de noite, em uma floresta deserta. Aterrorizada, a pequena tem vontade de correr, mas não pode. Ela sente “alguma coisa mais terrível ainda do que o terror”. Neste ponto, o leitor pode vir a experimentar uma certa dificuldade em segurar um sorriso, pois nunca antes tinha visto tal sentimento tão bem expresso em palavras:

Ela acreditava sentir que talvez não conseguisse impedir-se de voltar ali no dia seguinte, à mesma hora.”

GÍRIAS

Os Miseráveis tenta retratar as falas dos personagens o mais próximo possível da linguagem falada na época — algo inovador, que só seria bem aceito na literatura décadas depois.

São os ladrões os que mais dificultam a vida dos tradutores, enchendo todas as falas de palavras intraduzíveis. De fato, na época, gíria era considerado apenas a linguagem dos pobres e malandros, algo sujo. Mas Victor Hugo, sempre muito antes da sua época, reconhece o preconceito linguístico deste pensamento. Ele observa que não apenas os ladrões tem suas expressões, mas todo e qualquer grupo social. As gírias são responsáveis por causar identificação entre os membros de um grupo, e também de se fechar ao exterior. Mas apenas o jeito como os mais marginalizados da sociedade falam é repreensível, e só este ficou conhecido como gíria.

A MISÉRIA

Os miseráveis são as “tristes criaturas sem nome, sem idade, sem sexo, a quem nem o bem nem o mal são mais possíveis, e que […] já não têm nada neste mundo, nem liberdade, nem virtude, nem responsabilidade”.

Os sociólogos da época observavam a miséria, mas sempre olhando de cima para baixo. Pensava-se que a repressão (da falta de trabalho, do crime, da prostituição) resolveriam o problema. Mas se a sociedade é quem produz a miséria, ela continuará a produzir, sempre. Esse é o pilar de Os Miseráveis, e daí só pode vir a conclusão lógica de que é preciso mudar a sociedade ativamente. Uma mudança profunda em todos os mecanismos sociais, na consciência de viver em sociedade, na relação de cada homem com o próximo.

A história de Jean Valjean é a história de um homem decaído, ligado à sociedade apenas pelo amor de uma criança. Um injustiçado, assim como tantos outros.

Universo Desconstruído: contos de ficção científica feminista

ilustração por Tais FantoniA ficção científica é um gênero utópico ou distópico por definição. Ela se propõe a observar o presente, suas falhas e esperanças, e alongar a linha, imaginando um futuro. Ou seja, desde Asimov até Bradbury, a FC sempre foi terreno fértil para a crítica social, ou pelo menos, para algumas críticas sociais.

A mulher, ainda mais a mulher trans*, negra, homossexual, é invisibilizada. Renegada a estereótipos superficiais ou personagens secundários, incapaz e dependente. É uma situação que precisa de esforço ativo para ser mudada; sentar e esperar não ajuda. Pensando nisso, Aline Valek e Sybylla organizaram uma coletânea de contos que colocam a mulher no centro.

Os contos por vezes imaginam como seria o mundo se, finalmente, conseguíssemos nos desvencilhar de nossos preconceitos. Assim ficamos conhecendo protagonistas incríveis que talvez não teriam desabrochado nos dias de hoje, como é o caso da forte e justiceira Electra (Codinome Electra, Lady Sybylla).

Outras vezes conhecemos o outro lado da moeda, a opressão dos dias de hoje correndo solta e impunível. Nesse cenário, vemos mulheres sofridas, mas ainda fortes o suficiente para lutar por suas irmãs. A astropaleontóloga de Requiém para a humanidade (Thabata Borine), que tem seu caminho obstruído pela constante incredulidade e violência. A gênia da robótica Diana, de Eu, incubadora (Aline Valek), que, apesar do marido invejoso, inventa uma saída criativa para o seu problema. A esperta e perigosa Luísa e a infeliz Irina, de Cidadela (Lyra Libero). A neurocientista mais ou menos morta Isabel, de Projeto Áquila (Gabriela Ventura).

As personagens cativam por sua profundidade. Nenhuma é igual a outra, assim como na vida real, um fato que a ficção científica falhou tantas vezes em retratar. Ler um livro assim é se sentir compreendida.

Baixe o ebook gratuito no site: universodesconstruido.com

Blog de quadrinhos!

Um aviso rápido: quem gosta de quadrinhos deveria ir me seguir lá no meu novo blog, o cora comics! Eu costumava resenhar quadrinhos aqui, mas eu queria falar mais de quadrinhos e também sobre gibis, artes visuais, etc, então agora tudo que tenha imagens vai pro outro blog (: Espero que, com o tempo, tudo fique mais organizado.

(E estou lendo um livro que já dá pra ver que vai dar uma linda de uma resenha. Só dizendo. http://pagsocial.com/r/7YO.aspx)

A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera

Tereza e Tomas, Sabina e Franz são os dois casais que se entrelaçam e se separam, conduzindo a narrativa. Cada um deles tem uma personalidade bem específica e delimitada, e, a partir de suas reações ao mundo, Kundera discorre sobre o leve e o pesado. Acho o título incrível e fico feliz que no português a palavra insustentável não perde a sutileza do original em tcheco (nesnesitelná, segundo o google), diferente do que acontece em inglês. Em palavras de conotação contrária, é comum uma ser considerada boa e a outra ruim. Para Parmênides, o leve é positivo e o pesado é a ausência de leveza, e portanto negativo. Mas isso faz sentido de fato? Como explica o título, o ser tem uma característica própria de ser leve e, paradoxalmente, por causa disso é insustentável, pesado (ou vice-versa). Por exemplo, Sabina leva uma vida onde nunca se prende em nada ou ninguém, prezando por sua liberdade, e é exatamente esse o seu fardo. Já Franz tem seu trabalho, sua mulher, sua filha, enfim, suas responsabilidades, mas isso pesa tanto que o sufoca e faz a vida não ter sentido, ser leve demais. O autor carrega em todo o livro essas ambiguidades, e as explica de uma maneira que faz o leitor pensar “nossa, realmente é assim”.

O romance se passa na antiga Tchecoslováquia e começa em 1968, o ano da invasão russa e a Primavera de Praga. O contexto histórico é tão importante quanto os personagens em si, se é que ele não pode ser chamado de personagem. Praga também sente a insustentável leveza do ser de estar no meio de uma reforma política radical e dura. A violência é pesada, mas estar no meio do redemoinho faz tudo parecer leve, como se nada mais importasse. A leveza faz os personagens se acostumarem rápido ao novo cenário.

Parece que entre os quatro personagens problemáticos, como todo ser humano, apenas a cadela Karenin consegue extrair o melhor dessa estranha natureza do ser. Kundera explica que a cadela vê a vida de maneira circular, e não linear, como os outros. Ela não quer chegar a lugar algum, ela não tem um propósito, ela não almeja estar amanhã melhor do que estava hoje. Ao invés disso, vive e ama sua rotina, num eterno carpe diem.

A sinceridade do livro o torna melancólico, mas de um jeito bonito. Como na música de Beethoven citada por Kundera, alguns diriam que A Insustentável Leveza do Ser é um ess muss sein (tem que ser) da literatura, mas a leitura do livro pode se tornar extremamente leve, também.

Prêmio Eisner: webcomics

Com a Comic-Con de San Diego batendo na porta, começa a corrida contra o tempo pra ler o máximo de títulos indicados ao prêmio Eisner. O meu prêmio de quadrinhos preferido tem fama de revelar artistas novos, histórias fresquinhas e futuros clássicos. Diferente dos anos passados, este ano as gigantes DC e Marvel saíram de foco, e a mais alternativa Fantagraphics e autores independentes conquistaram seus lugares. Eu tenho tentado finalizar a leitura dos indicados às grandes categorias (melhor graphic album, melhor escritor/artista, melhor série contínua), mas como eu nunca tinha ouvido falar da maioria dos títulos – o que acho ótimo, claro -, ainda falta bastante coisa. Só tinha uma categoria na qual eu já estava um pouco mais avançada na época da divulgação dos concorrentes: as minhas amadas webcomics <3.

Webcomics são lindas por definição. A internet, esse lugarzinho mágico, permite que qualquer artista publique qualquer coisa para que qualquer pessoa possa ler. Simples e eficiente. Daí surgem obras lindas para todos os gostos, com muitas opções fora do monopólio das grandes editoras.

Dito isso, vamos à lista de indicados e minha breve opinião sobre cada um deles:

OUR BLOODSTAINED ROOF, de Ryan Andrews

Uma história curta e bem interessante; Our Bloodstained Roof não é uma séria contínua como os outros títulos. A arte é linda: pintada a nanquim mas suave, com o vermelho destacado por motivos claros. O jeito de desenhar as crianças, a história meio triste meio bonitinha e o tom de relato da infância me lembrou Retalhos, do Craig Thompson, que resenhei há alguns dias.

O enredo é meio excêntrico, não é o tipo de coisa que agrada qualquer um. Ainda assim, eu gostei. Me abriu os olhos para o Ryan Andrews. Depois de ter lido Our Bloodstained Roof, fui checar o site do autor e descobri várias coisas bonitas e promissoras. Já tinha ouvido falar da série Sarah and the Seed – a história de Sarah, que dá a luz a uma semente ao invés de a um bebê -, que foi indicada ano passado, e agora comecei a ler e é uma história bem sensível. Lá no site dele também tem um outro quadrinho curto legal, sem falas, e o preview de um quadrinho maior que parece bom.

O meu veredito (apenas com fins de enxerimento e bisbilhotice):

– Desenhos: 7

– Cor: 7

– Construção visual: 7

– Enredo: 4

ANT COMIC, de Michael DeForge

A arte de Ant Comic é MUITO LEGAL. Mesmo. Acho que já vale a pena só por isso. O Michael DeForge (que também é desenhista e escritor de Hora de Aventura!) tem um estilo bem gráfico, geométrico e todo coloridão.

Ant Comic são várias historinhas cômicas quase independentes entre si, mas que, na minha opinião, são melhor lidas da mais velha até a mais nova. Mas… sei lá. Muitas vezes acontece de eu não engolir muito bem o senso de humor delas. Sinceramente, prefiro outros trabalhos do DeForge.

– Desenhos: 10

– Cor: 10

– Construção visual: 7

– Enredo: 1

BANDETTE, de Colleen Coover e Paul Tobin

Pra mim ficou claro que Bandette é, entre todos os cinco, o melhor no quesito entretenimento. Bandette é uma trapaceira ardilosa, que lidera um grupo de justiceiros – a não ser quando o crime é bom demais para resistir. A arte de Coover é boa, mas sem tirar o foco da história. Bandette é daqueles quadrinhos difíceis de parar de ler. Infelizmente é o único dos cinco que não é gratuito, e cada volume custa 0,99 doletas na Comixology.

Do casal Coover e Tobin também saiu Gingerbread Girl, que tem um estilo parecido com Bandette – só que em preto e branco. Eu também admiro muito os trabalhos que a Coover fez na Marvel.

– Desenhos: 9

– Cor: 9

– Construção visual: 7

– Enredo: 10

IT WILL ALL HURT, de Farel Dalrymple

Bem lúdicos, os desenhos de It Will All Hurt são lindos, talvez até os melhores entre os indicados. A história é como um sonho (ou pesadelo): meio louca, meio triste, meio boba. O Dalrymple já publicou até a parte 4, e por enquanto o enredo ainda não tomou forma definida, mas o público já conhece personagens bem legais, como a Almendra, o Leon e o Gato Gris. Quem gosta de ficção científica e fantasia deveria ir dar uma checada.

– Desenhos: 10

– Cor: 9

– Construção visual: 10

– Enredo: 5

OYSTER WAR, de Ben Towle

E por último, uma história com uma estrutura mais tradicional em relação às outras. Os desenhos do Ben são legais, eu adoro as feições dos personagens. Oyster War é a história do Capitão Bulloch e sua tripulação inusitada contra seus arquirrivais, o pirata Fink e seus homens. A ação tá começando pra valer só agora, e tá imperdível: tem navios, magia, lendas e Davy Jones. Mas, na minha opinião, a história demorou um pouquinho pra esquentar. Então a dica é: não desista no primeiro capítulo.

– Desenhos: 9

– Cor: 9

– Construção Visual: 10

– Enredo: 7

Os meus favoritos são os três últimos, mas ficou bem difícil escolher só um. Oyster War é o coringa, que não tem quem não goste; Bandette é o que tem mais leitores; It Will All Hurt tem leitores parecidos com o do vencedor do ano passado, Battlepug. Bem acirrado.
Como o público é quem dá o voto final, minha aposta vai para… Bandette! Sem muita certeza, mas acho que se eu não escolhesse nenhum, não tinha graça. Alguém mais arrisca um palpite?

PS.: acertei ;)

Retalhos, de Craig Thompson

 Vencendor de três prêmios Harvey (melhor artista, melhor graphic novel original e melhor cartunista) e dois prêmios Eisner (melhor graphic novel e melhor escritor/artista), Retalhos é simplesmente arrebatador. Craig Thompson conta a sua própria história, desde criança até o final da adolescência, sua relação com os pais, o irmão, a religião, seu primeiro amor. Tudo isso de um jeito dolorosamente sincero: as formas, os traços certeiros de nanquim e até a neve que nunca acaba na pequena cidade no meio do nada transpiram a delicadeza da história a ser contada.

A puberdade de Thompson é marcada pelo temor a deus, transmitido continuamente por seus pais, e que inevitavelmente entra em conflito com seus desejos. Do acampamento da igreja com seus cultos até as aulas de ensino religioso e seus professores intimidadores, Craig se vê perdido entre dúvidas e inconsistências, incapaz de exercitar a pureza que exigem dele.

Sufocado em expectativas, acaba conhecendo Raina, uma garota leve e fluída, vivaz e impulsiva. A relação dos dois mudará as visões de Craig sobre o céu, deus e o amor.

O Craig é muito mais quadrado que a Raina – em todos os sentidos. E nas míseras duas semanas que ele passa com ela, as experiências compartilhadas são suficientes para balançar o seu mundo. Ele descobre que existe toda uma gama de outras opções entre céu e inferno. Ele descobre a sensação de compartilhar um mundo debaixo das cobertas nas noites de nevasca.

E em relação a dormir juntos: páginas e páginas são dedicadas a explicar essa sensação estranha e maravilhosa. Em mil e uma posições diferentes, pode se dizer que Craig Thompson é um PhD em desenhos de “conchinha”.

Retalhos é a arte de emocionar com uma história simples e sincera. Em suas páginas, dá pra sentir a vulnerabilidade do autor, todo entregue e aberto para ser lido.

Asterios Polyp, de David Mazzuchelli

Basta folhear Asterios Polyp para entender porque é um sucesso de críticas. As cores maravilhosamente selecionadas brincam de se combinar com suas análogas e complementares, compondo a paleta perfeita para cada par de páginas, que por sua vez compõem a paleta perfeita para o livro. Após essa primeira impressão, paro para observar mais atentamente os traços certeiros que desenham personagens bem elaborados. Está decidido, é esse mesmo. Passo no caixa e pago. E Asterios Polyp não precisou nem de meio minuto pra me convencer.

O Asterios do título é um arquiteto bem sucedido, mas “de papel”, termo utilizado para designar um arquiteto cujos projetos nunca são construídos. A história se divide por dois pontos de vista intercalados: o de Asterios e o de Ignazio. Ignazio é o irmão gêmeo do protagonista que não sobreviveu ao parto. Ele representa a dualidade e a simetria, tão preciosas para o irmão, que foi perdida. Através dele ficamos sabendo do passado de Asterios, um homem que segue à risca a regra da utilidade em sua vida – odeia enfeites, são desnecessários -, que enxerga o mundo em linhas retas, cheio de si. Asterios já foi casado com Hana, uma mulher delicada e fluída, a quem constantemente ofuscava e de quem inevitavelmente se divorciou. Já a história que o próprio arquiteto nos conta é uma história de mudanças. Inicialmente sozinho na vida, um incêndio destrói seu apartamento, deixando-o perdido. Levando apenas três objetos que conseguiu resgatar, foge do mundo que conhece e vai morar em uma cidade do interior, trabalhando como mecânico e morando na casa de seu patrão.

  Todos que leram Asterios Polyp tem que admitir que o fizeram por causa da arte de tirar o fôlego. Mas a história é colocada de um modo muito interessante, criando equilíbrio entre os elementos dos quadrinhos. David Mazzuchelli sabe muito bem os recursos que tem, e utiliza todas as suas possibilidades para extrair o máximo deles.




Clarice para crianças

 É uma pena que Clarice Lispector tenha escrito apenas quatro livros infantis: A Mulher que Matou os Peixes, Mistério do Coelho Pensante, A Vida Íntima de Laura e Quase de Verdade. Esses livros trazem uma sensibilidade impressionante, não deixando nada a desejar em comparação com a sua obra voltada aos adultos. São romances introspectivos, também, e por que não seriam? Clarice não subestima a inteligência das crianças.
Em A Vida Íntima de Laura, toda a narrativa se passa em torno dos “sentimentozinhos e pensamentozinhos” da galinha Laura – quer coisa mais clariceana que isso? Laura é muito burrinha, meio feia, mas tem um coração bom. Laura é vaidosa, sempre penteia as penas com o bico. Laura é muito medrosa, tem medo de morrer, mas escapa de virar ensopado porque bota muitos ovos. Já em Quase de Verdade, Ulisses, o cachorro, é o narrador. Ele late sua história (que é quase verdade) para sua dona, Clarice, que o entende e digita o texto para ele. E a história de Ulisses é sobre, adivinhem, galinhas.
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As galinhas aparecem muito em tudo que é da Clarice. Vejamos: além de nos dois livros que já falei, temos O Ovo e a Galinha, A Legião Estrangeira, Uma Galinha, Uma História de Tanto Amor, só pra ficar entre os mais óbvios. E, como os livros infantis da Clarice são muito sinceros no sentido de ter uma unidade clara com o resto da obra, existem alguns temas comuns:

  • O comer a galinha. O ato de comer a galinha que foi tão amada é recorrente, como a menina em Uma História de Tanto Amor, que come com gosto sua galinha que fora de estimação, ansiosa para que Eponina faça parte dela. Ou a Laura, que acaba não virando ensopado, mas pensa que, caso vire, gostaria de ser comida por alguém importante, como o Pelé (hahaha tá bom Laura, cada um com seus ídolos). Tipo antropofagia mas sem a parte do canibalismo.
  • A maternidade. Um tema bem importante pra Clarice, até quando não tem galinhas envolvidas. Tanto Laura quanto a galinha de Uma Galinha escapam da morte por causa de sua fertilidade, pois a maternidade é coisa para ser respeitada. Em A Legião Estrangeira, o amor que Ofélia sente pelo pintinho é maternal – e a menina o ama tão intensamente que acaba o matando. Se você conseguir sobreviver ao fluxo de consciência louco e muita vezes sem sentido direto de O Ovo e a Galinha, vai ver que é basicamente sobre mãe e filho.
  • A mulher. Esse tem muito a ver com o de cima, claro. A galinha representa a mulher: sempre galinha, nunca galo, assim como não existem protagonistas homens na obra de Clarice (alguns meninos, apenas). Daí dá pra ver a visão da Clarice sobre a mulher na sociedade.

 Se a literatura infantil tem como um de seus propósitos desenvolver a empatia na criança, libertando-a de seu estado natural que é o egocentrismo, a literatura infantil da Clarice é poderosa pois, assim como o resto da sua obra, é altamente introspectiva. Me surpreende que existam tantos livros para crianças com histórias realmente boas, criativas, que prendem a atenção – mas com personagens rasos. Os pequenos estão preparados, sim, para mais profundidade emocional. Na verdade, até anseiam por isso.

Logicomix: uma jornada épica em busca da verdade

Na Oresteia, de Ésquilo, Atena, deusa da sabedoria e da estratégia, utiliza sua lógica para resolver uma questão complicada sem recorrer à figura da autoridade, comum nos sistemas anteriores: inventa o júri popular. Desde a Grécia Antiga, o homem busca a difícil definição de raciocínio válido, e quando o conceito é tão volátil, é mesmo natural que a tarefa seja delegada apenas a deuses. Mas no século XX a ciência da Lógica cresce realmente, de maneira irônica entre guerras mundiais e crises. Bertrand Russell, Gottlob Frege, David Hilbert, Kurt Gödel, Ludwig Wittgenstein, John von Neumann, entre outros pensadores, guiam Logicomix na sua “jornada épica em busca da verdade”, como diz o subtítulo.

Bertrand Russell, ainda jovem, descobre a matemática e a eterna ambiguidade que ela traz na sua vida: por um lado a promessa de uma sociedade racional oferece conforto a um menino tão cheio de incertezas; por outro, o medo da loucura, tão contrário à Lógica mas tão comum em cientistas da área. Mais tarde, na universidade, descobre que a Matemática se encontra em crise. Os matemáticos da época apoiam-se em pilares que se apoiam em outros pilares que por sua vez se apoiam em mais alguns pilares qualquer, mas no final tudo isso está empilhado em cima do vazio, ruindo. São axiomas vazios. Russell, alucinado, passa boa parte de sua vida indo atrás dos fundamentos que estão faltando.

As ilustrações fortes, firmes e limpas de Alecos Papadatos e Annie di Donna impressionam primeiramente pela finalização impecável. A construção dos personagens, em se tratando de pessoas reais, também é ótima e divertida (exemplo: pesquisa de personagem do Bertrand Russell).

Estes quadrinhos não pretendem ser um manual de lógica para principiantes, longe disso. É uma história, como tantas outras, sobre pessoas e suas paixões – não se deixem enganar pelos personagens matemáticos. Uma história, inclusive, ficcional, mas na maior parte do tempo muito justa com a realidade. Genial. No final da Oresteia, as Fúrias dizem: “regozijai-vos, cidadãos felizes que apreciam a verdadeira sabedoria!”. Felizes eu não sei, loucos talvez, mas regozijai-vos com Logicomix.

Logicomix: uma jornada épica em busca da verdade, de Apostolos Doxiadis e Christos H. Papadimitriou, com arte de Alecos Papadatos e Annie di Donna. 347 páginas. Editora Martins Fontes.