Ensaio sobre a cegueira

E temos aqui um merecedor da tag obra-prima. Agora me arrependo de ter demorado tanto para ler, o fuzuê por causa do filme passou e eu simplesmente não me interessei, grande erro.

A primeira impressão sobre o livro é: Saramago, o que você tem contra parágrafos?? Pra quem não está habituado com o escritor português, parece sem sentido o modo como ele coloca as falas, o modo como os períodos não acabam nunca. Mas aí os capítulos começam a passar, e eles vão passando e então você percebe, a coisa tem ritmo! Acho que o momento em que eu percebi isso foi quando eu me apaixonei. Livro impossível de parar na metade, o que eu nunca imaginaria encontrar em algo tão sombrio como Ensaio sobre a cegueira.

A trama é de alguma forma simples mas ao mesmo tempo a ideia que se passa é complexa, por todos os sentidos que podem ser compreendidos e que exigem que o leitor se conecte. Muito tocante. Saramago disse que espera que o leitor se perturbe com a trama tanto quanto ele se sentiu perturbado ao escrevê-la. E realmente, é pesado, não por causa de cenas fortes que aparecem aqui e ali, mas pelo clima que envolve tudo.

Gosto muito do jeito que ele chama as personagens, a rapariga dos óculos escuros, a mulher do médico, o rapazinho estrábico, nunca citando nomes. Afinal, são todos animais, lutando pra ter o que comer e beber nessa epidemia de cegueira que acabou com a humanidade sem acabar com os humanos. E as mulheres… elas têm um lugar todo especial na visão do Saramago. Não de um jeito sexista, generalista, só de um jeito que trata os diferentes como diferentes que são, e portanto tem reações diversas à tragédia, ao desespero, à miséria e à falta de dignidade.

O Evangelho segundo Jesus Cristo entrou para a minha listinha, e é bom que corresponda as minhas expectativas, depois de ler Ensaio elas estão lá em cima.

Ah, e agora um mistério, alguém sabe o que significa essa capa (a que eu coloquei a imagem no começo)? Estou há um tempão tentando decifrar, se alguém souber favor compartilhar haha.

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4 respostas em “Ensaio sobre a cegueira

  1. Olá. Gostei do seu post. Lembro-me de que certa vez fiz algumas considerações teológicas sobre aquela parte em que eles entram na Igreja, no fim do livro. Envio para você. Abraços!

    São dezesseis figuras, sendo 4 mulheres e 12 homens. Aparecem duas crianças e 5 espécies de animais (leão, cordeiro, águia, pomba, corvo) todos aparecem na Bíblia sendo que os três primeiros são símbolos de força, cristianismo e sabedoria.

    Em quatro casos é possível ver uma alusão ao elemento literário: a mulher ensina a filha a ler (de olhos vendados), o homem com o menino sobre o livro, o homem com o leão (o primeiro evangelista: Marcos) e um homem com uma águia (símbolo do evangelho de João).

    Há uma alusão ao diabo no homem que domina o caído. Mesmo assim, em todos os casos, o leitor está diante da impotência de dominadores e dominados, de feridos e sábios, de mulheres e homens, crianças e animais.
    Interessante notar, também, que dois desses santos vem de tradição apócrifa: a mulher que ensina a menina (Sant’Ana e Maria) e São Miguel Arcanjo.

    Santo Antônio de Pádua, embora seja conhecido pelo nome da cidade, é natural de Lisboa e se chamava Fernando de Bulhões.

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