O Conto da Ilha Desconhecida, de José Saramago

Aquarela de Arthur Luiz Piza

Como se fosse uma parábola, me sinto discípula de Saramago ao ler este conto. Começa assim: o homem quer um barco para encontrar uma ilha desconhecida. O pra quê de encontrar a ilha tanto faz, até porque este tal homem também é homem, e buscar é sua natureza – sempre buscando, infinitamente. Vai pedir o barco para o rei, se depara com uma burocracia ferrenha para que possa pedir algo (já a burocracia dos obséquios nem existe). E afinal, ilha desconhecida? Como todos sabem e insistem em dizer, todas as ilhas já estão nos mapas, a época dos descobrimentos já acabou, não há nada de novo. Irônico isso, igualzinho à fase científica que temos passado na visão dos não cientistas desde 1997 (publicação do conto) até agora.

Partindo de Fernando Pessoa, “para viajar basta existir”, o homem e a mulher, a única que se interessa em juntar-se a ele, viajam em sonho mesmo.

O homem nem sonha que, não tendo ainda sequer começado a recrutar os tripulantes, já leva atrás de si a futura encarregada das baldeações e outros asseios, também é deste modo que o destino costuma comportar-se connosco, já está mesmo atrás de nós, já estendeu a mão para tocar-nos o ombro, e nós ainda vamos a murmurar, Acabou-se, não há mais que ver, é tudo igual.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s