Areia nos Dentes e as 150 páginas

Areia nos Dentes, de Antônio Xerxenesky, tem um grave problema: é curto demais. Livro muito criativo, ganha pontos pelo enredo genial. Se às vezes me incomoda a falta de profundidade de alguns personagens que poderiam ser mais explorados, o livro me satisfaz pela sua construção original e trama eletrizante. Pra ilustrar o meu ponto, uma passagem:

Sombras de cavalos e pessoas cavalgam e caminham nas casas de madeira clara. Os ouvidos de Juan escutam somente o vento e a areia. Ele nada pressente. O sol do meio-dia está eclipsado por uma nuvem cinza. Agacha-se e põe a cabeça contra o solo. Não há passos ou movimento em um raio de quilômetros. Levanta-se. Sua orelha fica cheia de areia por fora e por dentro. Uma esfera de poeira se aproxima. Abre a boca e sente pequenos grãos de areia se grudarem nas frestas de seus dentes, a sensação mais desagradável que conhece. Tenta cuspir parte da areia, mas, ao abrir a boca para isso, tudo que consegue é absorver outro punhado de grãos. Fecha a boca em desistência. Aguarda. Caminha. Olha. Espera.

Gosto bastante desse parágrafo. E com base nele o romance teria fôlego para muito mais que contar uma história legal – fôlego pra amarrar tudo isso numa narrativa chorável e com personagens mais opacos (pra usar o termo do James Wood). Só que, mais uma vez, é aquele caso do livro nacional contemporâneo que tem mais ou menos 150 páginas.

Fazendo um jogo entre os planos narrativos, Xerxenesky escreve sobre Juan O Atual que escreve sobre Juan O Antigo. Na minúscula cidade de Mavrak, a família dos Ramírez tem uma rivalidade inexplicável com a família dos Marlowes. Entre muitos tiros, fumaça e tentativas de aniquilação mútuas, o jovem covarde Juan Ramírez se sente perdido. Ele sempre foi um cara do norte, por dentro. Mas seu relacionamento com o pai o prende àquela cidadela empoeirada fora do caminho do desenvolvimento. E sim, sim, tem zumbis.

Zumbis pra vocês gostarem do meu post. Porque "se tem zumbis no meio, só pode ser bom".

Mas e por que 150 páginas? 144 na edição da Rocco, na verdade. Tudo que tem saído de contemporâneo e brasileiro tem esse tamanho também, mais ou menos e com as devidas exceções. É o fôlego do autor ou o do leitor que acaba assim, cedo? Eu fico com a mistura dos dois. Escrever um romance longo e altamente elaborado exige autoestima. Porque se o escritor vai gastar uma considerável parcela da sua vida escrevendo um romance, e ainda sem garantia de retorno lucrativo já que todo mundo precisa comer, ele vai precisar de muita autoestima, a certeza de que o seu texto é bom, que vale a pena e que ainda vai ser suficiente pra pagar a conta de luz. O atual ambiente editorial brasileiro estimula essa autoestima? Claro que não. E o leitor contribui jogando mais pedras no escritor, indo ver tevê ou lendo os clássicos “que já estão garantidos”. Eu contribuo, porque poderia estar escrevendo sobre como Areia nos Dentes é bom. E é. Mas não deu pra não ficar com vontade de mais.

P.S.: Xerxenesky eu ainda te amo. Mesmo em 144 páginas.

P.S. 2: Que que cês acham sobre a questão 150 páginas?

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4 respostas em “Areia nos Dentes e as 150 páginas

  1. Livros curtos são reflexos da internet e da informação rápida. O Chuck Palahniuk(aquele escritor meio gore que eu te falei algumas vezes) tem os livros publicados num número similar de páginas, livros curtos. Linguagem simples, sem muitas divagações e reflexões. Com a narrativa totalmente voltada nos atos e não em análises de comportamento, ou na própria “poesia da prosa”. Uma linguagem sem ornamentos, pra não confundir a cabeça do leitor com pressa, sem tempo(e com “tempo” quero dizer “paciência”) pra deleitar realmente um romance. É quase que uma linguagem cinematográfica impressa em folhas de papel, o que pode descaracterizar a literatura, e transformar uma obra, num roteiro que ao invés de cenas, tem capítulos. Se isso é bom ou é ruim? Sinceramente, não faço a menor ideia.

    • Acontece que o Chuck Palahniuk é um caso isolado. Não existe nenhuma tendência perceptível sobre quantidade de páginas no cenário mundial hoje. Agora dá um olhadinha no catálogo da Não Editora (que eu adoro e tudo, mas enfim) : http://www.naoeditora.com.br/secao/catalogo/ . Eu vejo uma tendência aí. Tem uma matéria do Caio Yurgel no Cadernos de Não-Ficção #3 (http://issuu.com/naoeditora/docs/cadernos_3) sobre isso, mas não coloquei o link no post porque ele fala de “literatura pau-mole”, sendo que eu gostei de Areia nos Dentes. E acho meio mito isso de “a pessoa moderna não ter tempo/paciência” pra ler porque nunca se leu tanto livro no Brasil. Mas acho tendência essa narrativa mais jornalística mesmo, literatura do “o personagem fez isso daí o personagem fez aquilo” (mas não acontece isso com o Xerxenesky).

  2. Como falei no meu post no Catálise (http://catalisecritica.wordpress.com), lerei os próximos livros de Xerxenesky sim. Acho que ele tem potencial, mas esse primeiro livro é a cara de um primeiro livro de alguém com muita referência. Ele poderia contar, mesmo em 150 páginas, uma história mais redonda, se não recorresse a tanta metalinguagem e a tanta variação de estilos. Porque uma vez que ele utilizou isso, ficou tudo muito rápido, muito superficial, muito urgente, o que, somado ao fato de que os personagens em si já são superficiais, torna a leitura meio descartável. Mas há passagens muito boas, como essa que você destacou e que demonstram que ele tem mesmo bastante potencial. É só ler o blog dele (eu acompanho sempre) para ver isso.
    Um outro exemplo clássico (mas mais bem sucedido, para mim) destes romances-novelas-quasecontos é o livro O único final feliz para uma história de amor é um acidente, de J. P. Cuenca. É uma narrativa não linear, em duas vozes, basicamente, mas que se mantém fiel (na medida do possível) a esta proposta. Mas o livro é incrivelmente curto. Você pode folhear com cuidado o livro para ver o malabarismo que a editora fez para transformar esse conto em um romance. Se brincar, sem edição, sem nada, o livro dá quarenta páginas e olhe lá. Deixa de ser uma boa história? Não. Mas acho que a editora acaba vendendo gato por lebre ao entregar o livro no formato de romance, quando na verdade ele é um conto.

    • Só pra deixar claro (me arrependi de não ter escrito isso no post): nada contra novelas e contos, cada formato tem suas especificidades, funções e manhas na hora de escrever. É só que eu vejo muito essa tendência na literatura brasileira contemporânea (vide catálogo da Não Editora: http://www.naoeditora.com.br/secao/catalogo/), o que me faz pensar que os autores são influenciados, mesmo que inconscientemente, a aumentar um pouco aquela novela ou não se prolongar no romance que ainda dava muito mais porque é isso que as editoras/consumidores querem desse tipo de literatura hoje.
      Uma palavra que você disse e foi certeira: urgente. A tal da urgência fica lá, te perseguindo e incomodando durante todo o livro. Concordo totalmente. E, sem dúvidas, o Xerxenesky tem muitas referências. Aguardarei mais um romance pra poder comparar, porque em A Página Assombrada por Fantasmas não dá pra saber direito se houve uma evolução, por se tratarem de contos.

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