Conhecendo Clarice

Existem escritores que são fechados, ou pelo menos tão fechados quanto a profissão permite. Contam histórias que não se ligam diretamente às suas vidas, e eu arriscaria dizer que esses são maioria. Mas Clarice Lispector, não. Clarice é amiga de longa data do leitor. Seu intimismo chega a tal ponto que não se sabe o que é romance, o que é conto e o que é crônica. Em sua crônica Amor Imorredouro, publicado no Jornal do Brasil ainda como cronista iniciante, apenas sua quarta semana na nova profissão, ela admite que suas crônicas fogem ao gênero. “Ainda continuo um pouco sem jeito na minha nova função daquilo que não se pode chamar propriamente de crônica”, disse ela. E claro, é unânime que Clarice transcende gêneros. Mas, se por um lado suas publicações no jornal diferenciam-se expressivamente da forma, ordem cronológica e disposição dos fatos empregadas por seus colegas cronistas, por outro lado podemos considerar que crônica é um relato íntimo e pessoal sobre a vida do escritor, e aí Clarice é rainha. Se levarmos em conta tal definição, a maioria de seus contos seriam também crônicas e seus romances todos teriam tempero de crônica. Clarice é tão verdadeira que, na verdade, a crônica é apenas um caminho natural para o qual sua escrita flui.

Se basta um romance para o leitor se sentir amigo de Clarice, com a coletânea de crônicas Clarice na Cabeceira, é como se estivesse em uma longa conversa íntima com a amiga. Sua vida – e ah, como essa mulher sabia viver – se explicita conforme as páginas vão ficando para trás. Nessa coletânea, publicada pela Rocco, vinte pessoas, entre jornalistas, escritores e outros artistas, foram selecionados, por diversos motivos, para escolher sua crônica clariceana favorita. E também, antes de cada crônica, vem um apresentação escrita por aquele que a escolheu. Algumas apresentações são mais simplórias, mas algumas são muito interessantes para esta nossa missão de conhecer Clarice. Destaque para a de Lygia Fagundes Telles, muito significativa.

A contracapa do livro diz e não poderia estar mais correta:

Crônica é um relato? É uma conversa? É um resumo de um estado de espírito? Não sei, escreveu certa vez a autora. Clarice na Cabeceira é um convite para descobrirmos juntos

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