Introdução a Os Miseráveis

Enquanto sobre a terra houver ignorância e miséria, livros como este não serão inúteis.”

Victor Hugo foi um homem com percepção social muito a frente de seu tempo. Enquanto os romances contemporâneos ignoravam a existência dos marginalizados, Os Miseráveis faz questão de ilustrar toda a amplitude social: dos reis até as prostitutas, dos benfeitores até os ladrões, dos monarquistas até os republicanos. Concebido antes de 1848 e publicado em 1862, o romance assume a França do século XIX por inteira.

DIGRESSÕES

Os Miseráveis mistura ensaio e romance, muitas vezes interrompendo o fluxo dos acontecimentos para que Hugo discorra sobre suas visões religiosas e políticas. Um leitor entediado afirma na internet que 955 páginas das 2 783 da sua edição são de ensaios, aproximadamente um quarto da obra. Algumas vezes, o autor fala de suas próprias experiências, depois se desculpando por ter inserido a primeira pessoa na história. Mas ele não se acanha e repete o feito; logo depois se desculpa.

Também acontece de se perder nos seus personagens. Por exemplo, o livro começa: “Em 1815…”, e então “embora este detalhe não mude, de forma alguma, o cerne do que temos a contar, talvez não seja inútil […] citar aqui os diversos boatos…”. Seguem-se aproximadamente sessenta páginas do dito detalhe, descrevendo o bispo de Digne, para que, catorze capítulos depois, quando o leitor já havia se esquecido, ele retome os acontecimentos de 1815.

Mas como disse o biografista Lippincott, “as digressões de um gênio são facilmente perdoadas”. Pode parecer que eu testemunho contra Os Miseráveis, mas não, pois é exatamente aí que reside o encanto: em se deixar perder, eventualmente.

DEUS EX MACHINA

Fica claro que Hugo prefere a significância em relação a verossimilhança, como Flaubert e Baudeleire não puderam deixar de, maldosamente, apontar. Cada personagem representa uma característica humana, com exceção talvez de Jean Valjean e seu vazio (ou será ele a maior caricatura de todos?). Mas cada um deles é franco e, talvez, o leitor, ao invés de se identificar com um deles, se identifique com todos, cada um formando uma parte da psique humana.

De jeito semelhante, o autor não hesita em se utilizar de coincidências exageradas, deus ex machina. Guy Rosa disse que “sua inverossimilhança faz sorrir e sua necessidade faz pensar”. A trama serve ao motivo, e não o contrário. Se um personagem tiver que ser jogado em direção ao outro, que seja. Os Miseráveis é, acima de tudo, um livro político.

SUBCONSCIENTE

Hugo parece ter uma intuição para as vontades inexplicadas, fazendo bonitas descrições do que apenas mais tarde seria formalizado pela psicanálise. Na segunda parte, livro três, Cosette é obrigada a ir buscar água de noite, em uma floresta deserta. Aterrorizada, a pequena tem vontade de correr, mas não pode. Ela sente “alguma coisa mais terrível ainda do que o terror”. Neste ponto, o leitor pode vir a experimentar uma certa dificuldade em segurar um sorriso, pois nunca antes tinha visto tal sentimento tão bem expresso em palavras:

Ela acreditava sentir que talvez não conseguisse impedir-se de voltar ali no dia seguinte, à mesma hora.”

GÍRIAS

Os Miseráveis tenta retratar as falas dos personagens o mais próximo possível da linguagem falada na época — algo inovador, que só seria bem aceito na literatura décadas depois.

São os ladrões os que mais dificultam a vida dos tradutores, enchendo todas as falas de palavras intraduzíveis. De fato, na época, gíria era considerado apenas a linguagem dos pobres e malandros, algo sujo. Mas Victor Hugo, sempre muito antes da sua época, reconhece o preconceito linguístico deste pensamento. Ele observa que não apenas os ladrões tem suas expressões, mas todo e qualquer grupo social. As gírias são responsáveis por causar identificação entre os membros de um grupo, e também de se fechar ao exterior. Mas apenas o jeito como os mais marginalizados da sociedade falam é repreensível, e só este ficou conhecido como gíria.

A MISÉRIA

Os miseráveis são as “tristes criaturas sem nome, sem idade, sem sexo, a quem nem o bem nem o mal são mais possíveis, e que […] já não têm nada neste mundo, nem liberdade, nem virtude, nem responsabilidade”.

Os sociólogos da época observavam a miséria, mas sempre olhando de cima para baixo. Pensava-se que a repressão (da falta de trabalho, do crime, da prostituição) resolveriam o problema. Mas se a sociedade é quem produz a miséria, ela continuará a produzir, sempre. Esse é o pilar de Os Miseráveis, e daí só pode vir a conclusão lógica de que é preciso mudar a sociedade ativamente. Uma mudança profunda em todos os mecanismos sociais, na consciência de viver em sociedade, na relação de cada homem com o próximo.

A história de Jean Valjean é a história de um homem decaído, ligado à sociedade apenas pelo amor de uma criança. Um injustiçado, assim como tantos outros.

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Madame Bovary, de Gustave Flaubert

 Flaubert sonhava em escrever um livro sobre nada – no qual só o estilo importa, e não o assunto. Em parte ele consegue: Madame Bovary, livro que deu o pontapé inicial no realismo, é objetivo, imparcial, enfim, limpo. A temática, inclusive, foi retirada de notícias de jornais sobre duas mulheres diferentes, como quem escolhe algo ao acaso para falar sobre. Mas ao mesmo tempo a história de Emma importa, sim, e cada detalhe pode denunciar o absurdo da burguesia ascendente do século XIX. Flaubert, mesmo após muitas edições e páginas cortadas fora, não consegue esconder seu desprezo pela classe burguesa, da qual faz parte. Todos os personagens refletem isso, eles são e ao mesmo tempo não são o próprio Flaubert, as características que o autor mais ridiculariza e também aquelas com as quais ele se identifica estão reunidas em cada um deles (mais obviamente em Emma e Homais – mais sobre isso depois).

Emma Rouault é uma aldeã que leu romances sentimentais demais. Fascinada com ideais inatingíveis – de amores, de roupas, de vida -, ela nunca consegue encontrar sua tão esperada felicidade. Se casa com Charles Bovary, homem sem muita sensibilidade mas que a ama. Emma passa os dias olhando pela janela, passiva, esperando que alguma guinada aconteça na sua vida. Odeia Charles. Odeia sua vida provinciana monótona. Vai buscar no adultério o que não consegue alcançar no casamento – sem sucesso.

Madame Bovary é um livro muito bem pensado. Impressiona a precisão de cada vírgula, nada está na narrativa sem motivo de ser. Por isso, não me satisfaço em resenhar. Queria comentar detalhes (maravilhosos, essenciais) e também a estrutura do livro em geral, com mais liberdade pra comentar o enredo. Sim, isso inclui o final do livro. Ou seja, quem já leu vem comigo e clica aí no “continue lendo”.

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Mais do bom e velho Machado

Perdoem a overdose machadiana, mas eu tenho uma meta: ler a obra completa de Machado de Assis. E é muito conto. Meus preferidos eu morro de vontade de falar sobre, inclusive já falei de alguns, e ainda tem muita coisa boa e válida que eu vou achando conforme vou lendo. Para não ficar tão longo e ao mesmo tempo poder compartilhar tudo que eu quero compartilhar, vou fazer um apanhadão de alguns contos que tem me cativado ultimamente.

As Academias de Sião: a princípio chama a atenção por ser diferente do que a gente está acostumado em termos de Machado, mas na verdade não foge muito, não. Se passa na China e utiliza algumas alegorias hindus (nossa, isso é Machado?), e fala sobre a arrogância, prepotência e ignorância humana (ah, agora sim). É uma sátira com as academias, tanto científicas quanto literárias, comuns no final do século XIX (oi, ABL). Os intelectuais de Sião indagam-se, observando seu rei de personalidade emotiva e traços delicados, porque alguns homens tem alma de mulher e algumas mulheres tem alma de homem. Algumas academias creem que a alma é neutra e nada tem a ver com o exterior. Já uma outra academia acredita que existem almas femininas e masculinas, e ocasionalmente elas vão parar nos corpos errados. Essa última academia, certa de seu veredicto, aniquila barbaramente os intelectuais que acreditam na alma neutra. Mas além da prepotência necessária para agir com tamanha violência, os membros da academia vencedora também são prepotentes com seus colegas acadêmicos. Juntos, julgam-se a luz do mundo. Mas separados, são cobras, falando mal um dos outros.

Meio que paralelamente também se discute a questão do homem feminino/mulher masculina. O rei feminino e Kinnara, que é uma mulher masculina, trocam de corpos. Mas Machado não quer provar tese nenhuma – ele apenas joga o enredo para que o leitor pense o que quiser.

A Cartomante: Clássico. Além do bem machadiano (traição com a esposa do melhor amigo etc.), é bem interessante a temática do supersticioso. Já começa citando Hamlet (“há mais coisas entre o céu e a terra, horácio, do que sonha a nossa vã filosofia”), enquanto Camilo debocha de Rita (sua amante) por ter consultado uma cartomante. Mas quando vem a necessidade, Camilo, antes tão fechado, se sente muito tentado a visitar a tal vidente, e acaba indo. É incrível como o ser humano ama acreditar no que é reconfortante quando se sente indefeso (superstições, religiões…). Ótimo final, bem frio.

Noite de Almirante: Adoro. Triângulo amoroso de novo, mas dessa vez não é amargo. É doce e sutil. O marinheiro Deolindo e Genoveva juram que, durante os 10 meses que esse ficará longe, irão esperar um pelo outro. No dia da chegada, Deolindo vem ansioso pela sua merecida “noite de almirante”, que não acontece. O conto vai sempre trazendo a expectativa de tragédia, mas esta não vem, fica só na melancolia do jeito ingênuo, inocente e cativante da Genoveva.

Baixar em domínio público: As Academias de Sião, A Cartomante e Noite de Almirante.

Lucíola, de José de Alencar

E afinal de contas, que livro romântico não tem a sua cota de clichê? Eu poderia ficar aqui dissertando sobre o amor chato de Paulo e Lúcia e toda a tempestade em copo d’água da trama, mas não me adianta nada. É romance romântico, e já se sabe o que esperar; vou é falar do que diferencia essa obra e não de tudo que é igual a tantas outras.

Peguei esse livro por sugestão de uma amiga, já tinha uma ideia sobre a trama e esperava algo além de outros romances de Alencar como Diva e Senhora. A  prostituta, ainda que virgem de alma, tinha potencial para ser uma heroína romântica diferenciada, e acabei resolvendo ler, mesmo eu sendo nada alencarista. E olha, admito: tem que se dar o crédito ao autor. Mesmo na partes mais obscuras da babaquice romântica, a narrativa, cheia de técnica que é, continua indo firme e forte.

Mas me pedir pra apreciar a puritanice de Lúcia disfarçada de “ousadia” do escritor, já é difícil. Coloco ousadia entre aspas porque o enredo (pensando na época do séc. XIX, claro) só choca quando se lê a resenha de trás da capa. Após alguns capítulos, fica bem claro aonde tudo vai chegar. Lúcia é pura, religiosa, frágil, submissa. Quanto ao José de Alencar fugir de certos dogmas romantistas, pois Lúcia não é virgem e Paulo aceita se relacionar com uma mulher como ela, já vimos isso antes. Prefiro uma Aurélia, que pelo menos é forte.

Alice e o surrealismo

“Alice no País das Maravilhas” e “Alice Através do Espelho”, Lewis Carroll, publicados em 1865 e 1871, respectivamente, são duas obras que não fazem sentido por seu excesso de significado, ao invés da falta dele. Carroll, como matemático apaixonado, encheu suas páginas de problemas de lógica e números, além de jogos de palavras, às vezes em latim, paródias de poemas tradicionais vitorianos… Todas essas informações podem ser bem complicadas de entender em sua totalidade, como por exemplo uma piada sobre “washing classes”, ou no caítulo 2 de “Alice no País das Maravilhas”, quando Alice começa a efetuar multiplicações:

“Deixe-me ver: quatro vezes cinco é doze, e quatro vezes seis é treze, e quatro vezes sete é – oh céus! Eu nunca chegarei a vinte nesse ritmo!”

Essa passagem explora a utilização de diversos sistemas numéricos. Quatro vezes cinco é doze num sistema de dezoito bases, quatro vezes seis é treze num sistema de vinte e uma bases, e quatro vezes sete é catorze num sistema de vinte e quatro bases. A sequência vai aumentando três bases cada vez, o que demoraria muito tempo para a maioria das pessoas perceber. O resultado sempre vai ser menor que vinte, porque depois de 19 o produto seria 1A, 1B, 1C, 1 D…

Por isso aconselho uma releitura, mas na versão “The Annotated Alice”, com comentários de Martin Gardner, que também ajuda a entender contextos da época.

Alice  possui um relação certamente intrínseca – e ao mesmo tempo diferenciada – com o movimento surrealista. Muitos psicólogos, principalmente os que seguem a linha freudiana, veem na obra, além de metáforas que sucumbem ao mundo real, várias coisas que se referem também ao mundo dos sonhos.

Relacionando Alice…

Hieronymus Bosch (pré-surrealista): esse contemporâneo de Jan van Eyck não tinha nada a ver com as pinturas renascentistas e cientificistas à moda de seu tempo. Apesar de tratar de temas como a ambiguidade religiosa, Bosch usava figuras fantasiosas, impossíveis e improváveis.

“Jardim das Delícias” de Bosch assemelha-se a um certo País das Maravilhas

Frida Kahlo (surrealista): as obras de Frida valorizam o inconsciente, assim como as temáticas mais freudianas em Alice. Seus quadros muitas vezes são sombrios, e esse lado sombrio faz parte sim do País das “Maravilhas”. A tradução para o português não passa exatamente a ideia do original em inglês (acho uma boa tradução, mas me sinto na obrigação de ressaltar esse aspecto). “Wonderland”, em inglês, deixa uma ideia mais aberta a que tipo coisas vivem nesse mundo: coisas bizarras, com certeza, mas não se sabe apenas pelo título se são boas ou más necessariamente. Já em português, há a falsa impressão de coisas boas, “maravilhosas”.  Não é bem assim, como pode-se observar nas várias partes em que Alice se sente perdida e assustada.

“Meu vestido pendurado ali”, Frida Kahlo. Um tanto quanto sombrio e muito influenciado pelo mundo dos sonhos.

Dr. Seuss (literatura nonsense e infantil): eu sempre vejo Dr. Seuss (ou Theo LeSieg, seu outro pseudônimo) como um Lewis Carroll moderno. Assim como Carroll, ele não escrevia suas histórias infantis com uma moral na cabeça. Apesar disso, era mais politizado em seus livros que o primeiro.

Dr. Seuss desenhando O Grinch, e um de seus personagens “The Cat in the Hat”.

John Lennon (literatura nonsense): se no início desse texto eu disse que Alice não fazia sentido por excesso de significado, os contos de John Lennon são o extremo oposto: não tem significado algum. Mas isso não empobrece seu trabalho literário. Sua liberdade de pensamento artístico impressiona e faz valer a pena a leitura. Ainda assim, meu “poema” preferido não está entre seus textos publicado e sim entre suas músicas gravadas: “I am the Walrus”.

Caricatura de John Lennon, e ele nas gravações de “I am the Walrus”

O Alienista (Machado de Assis)

O primeiro post deste blog não poderia ter um tema melhor. Primeiro uma breve introdução sobre os contos machadianos: Machado de Assis, um dos melhores romancistas que já li, mas acima disso o contista por quem mais me apaixonei, escreveu cerca de 200 contos.  Sua produção inicial tinha ar romântico, mas conforme vai amadurecendo seu estilo realista vai se lapidando e revelando a verdadeira visão do autor. Entre os temas recorrentes em seus contos estão o adultério, os ciúmes, o sonho, a sociedade elitista, a complexidade psicológica das personagens. Esse último é a temática principal em O Alienista e será profundamente explorado por Machado.

Apesar de ser considerado uma novela por alguns críticos, a maioria entra em acordo de que se trata de um conto devido à sua estrutura. Publicado em 1882, pertence ao início do segundo período machadiano. Simão Bacamarte, homem muito dedicado às ciências, decide estudar mais profundamente a loucura humana e para tal constói um hospício a fim de observar as deficiências das faculdades mentais. Surge um problema: não existe uma linha sólida entre loucura e lucidez, porém Bacamarte, no auge do seu cientificismo, pensa entender perfeitamente o que acontece na mente humana.

A obra coincide em tempo histórico com os primórdios da psicanálise freudiana, e inclusive antecipa essa temática psicológica muito comum para o início do século XX.

Nas artes visuais, entre os artistas que conversam com esse conto está Manet. Suas pinturas são crus e verídicas à moda do realismo da época. Porém o pintor cujas percepções sociais e consequentemente artísticas mais coincidem com Machado, não só em O Alienista mas em diversos contos e romances da segunda fase, é Gustave Courbet. Também realista, suas primeiras pinturas retratavam cenas do cotidiano de trabalhadores, voltando-se bem mais para as classes baixas do que Machado, porém pode-se inferir um certo olhar pessimista. Algumas de suas pinturas revelam conflitos psicológicos comparáveis a O Alienista.

Na escultura, relaciona-se com Rodin, principalmente OPensador.

“Auto-Retrato com Cão”, “Auto-Retrato” e “Os Cortadores de Pedra”, todos de Gustave Courbet

Recomendo para os amantes da ilustração (como eu), a versão novela gráfica de O Alienista, por Fábio Moon e Gabriel Bá.