A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera

Tereza e Tomas, Sabina e Franz são os dois casais que se entrelaçam e se separam, conduzindo a narrativa. Cada um deles tem uma personalidade bem específica e delimitada, e, a partir de suas reações ao mundo, Kundera discorre sobre o leve e o pesado. Acho o título incrível e fico feliz que no português a palavra insustentável não perde a sutileza do original em tcheco (nesnesitelná, segundo o google), diferente do que acontece em inglês. Em palavras de conotação contrária, é comum uma ser considerada boa e a outra ruim. Para Parmênides, o leve é positivo e o pesado é a ausência de leveza, e portanto negativo. Mas isso faz sentido de fato? Como explica o título, o ser tem uma característica própria de ser leve e, paradoxalmente, por causa disso é insustentável, pesado (ou vice-versa). Por exemplo, Sabina leva uma vida onde nunca se prende em nada ou ninguém, prezando por sua liberdade, e é exatamente esse o seu fardo. Já Franz tem seu trabalho, sua mulher, sua filha, enfim, suas responsabilidades, mas isso pesa tanto que o sufoca e faz a vida não ter sentido, ser leve demais. O autor carrega em todo o livro essas ambiguidades, e as explica de uma maneira que faz o leitor pensar “nossa, realmente é assim”.

O romance se passa na antiga Tchecoslováquia e começa em 1968, o ano da invasão russa e a Primavera de Praga. O contexto histórico é tão importante quanto os personagens em si, se é que ele não pode ser chamado de personagem. Praga também sente a insustentável leveza do ser de estar no meio de uma reforma política radical e dura. A violência é pesada, mas estar no meio do redemoinho faz tudo parecer leve, como se nada mais importasse. A leveza faz os personagens se acostumarem rápido ao novo cenário.

Parece que entre os quatro personagens problemáticos, como todo ser humano, apenas a cadela Karenin consegue extrair o melhor dessa estranha natureza do ser. Kundera explica que a cadela vê a vida de maneira circular, e não linear, como os outros. Ela não quer chegar a lugar algum, ela não tem um propósito, ela não almeja estar amanhã melhor do que estava hoje. Ao invés disso, vive e ama sua rotina, num eterno carpe diem.

A sinceridade do livro o torna melancólico, mas de um jeito bonito. Como na música de Beethoven citada por Kundera, alguns diriam que A Insustentável Leveza do Ser é um ess muss sein (tem que ser) da literatura, mas a leitura do livro pode se tornar extremamente leve, também.

Anúncios

Clarice para crianças

 É uma pena que Clarice Lispector tenha escrito apenas quatro livros infantis: A Mulher que Matou os Peixes, Mistério do Coelho Pensante, A Vida Íntima de Laura e Quase de Verdade. Esses livros trazem uma sensibilidade impressionante, não deixando nada a desejar em comparação com a sua obra voltada aos adultos. São romances introspectivos, também, e por que não seriam? Clarice não subestima a inteligência das crianças.
Em A Vida Íntima de Laura, toda a narrativa se passa em torno dos “sentimentozinhos e pensamentozinhos” da galinha Laura – quer coisa mais clariceana que isso? Laura é muito burrinha, meio feia, mas tem um coração bom. Laura é vaidosa, sempre penteia as penas com o bico. Laura é muito medrosa, tem medo de morrer, mas escapa de virar ensopado porque bota muitos ovos. Já em Quase de Verdade, Ulisses, o cachorro, é o narrador. Ele late sua história (que é quase verdade) para sua dona, Clarice, que o entende e digita o texto para ele. E a história de Ulisses é sobre, adivinhem, galinhas.
20120801-160520.jpg
As galinhas aparecem muito em tudo que é da Clarice. Vejamos: além de nos dois livros que já falei, temos O Ovo e a Galinha, A Legião Estrangeira, Uma Galinha, Uma História de Tanto Amor, só pra ficar entre os mais óbvios. E, como os livros infantis da Clarice são muito sinceros no sentido de ter uma unidade clara com o resto da obra, existem alguns temas comuns:

  • O comer a galinha. O ato de comer a galinha que foi tão amada é recorrente, como a menina em Uma História de Tanto Amor, que come com gosto sua galinha que fora de estimação, ansiosa para que Eponina faça parte dela. Ou a Laura, que acaba não virando ensopado, mas pensa que, caso vire, gostaria de ser comida por alguém importante, como o Pelé (hahaha tá bom Laura, cada um com seus ídolos). Tipo antropofagia mas sem a parte do canibalismo.
  • A maternidade. Um tema bem importante pra Clarice, até quando não tem galinhas envolvidas. Tanto Laura quanto a galinha de Uma Galinha escapam da morte por causa de sua fertilidade, pois a maternidade é coisa para ser respeitada. Em A Legião Estrangeira, o amor que Ofélia sente pelo pintinho é maternal – e a menina o ama tão intensamente que acaba o matando. Se você conseguir sobreviver ao fluxo de consciência louco e muita vezes sem sentido direto de O Ovo e a Galinha, vai ver que é basicamente sobre mãe e filho.
  • A mulher. Esse tem muito a ver com o de cima, claro. A galinha representa a mulher: sempre galinha, nunca galo, assim como não existem protagonistas homens na obra de Clarice (alguns meninos, apenas). Daí dá pra ver a visão da Clarice sobre a mulher na sociedade.

 Se a literatura infantil tem como um de seus propósitos desenvolver a empatia na criança, libertando-a de seu estado natural que é o egocentrismo, a literatura infantil da Clarice é poderosa pois, assim como o resto da sua obra, é altamente introspectiva. Me surpreende que existam tantos livros para crianças com histórias realmente boas, criativas, que prendem a atenção – mas com personagens rasos. Os pequenos estão preparados, sim, para mais profundidade emocional. Na verdade, até anseiam por isso.

O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway

Não coloquei a imagem da edição da Bertrand Brasil só de birra.

Queria porque queria ler Hemingway, fui lá e comprei a edição da Bertrand Brasil, não li sinopse, não li resenha, só comprei. Chego em casa e começo a ler a contracapa e as orelhas: medo, terror, vergonha. Fico sabendo que se trata de uma história de superação, na qual o velho pescador Santiago desafia seus limites físicos e mentais, mesmo que mais ninguém acredite nele. Porque o importante é acreditar em si mesmo e tudo mais. Estão conseguindo visualizar a minha vontade de sair correndo enquanto um letreiro luminoso de “autoajuda” pisca na minha cabeça?

Mas o fato é que a edição da Bertrand apelou bonito. O Velho e o Mar é a história de um velho que, mesmo após 84 dias sem pegar um peixe, volta ao mar porque essa é a natureza dele – ele é um pescador, é isso que ele nasceu pra fazer. Santiago é um homem sozinho no mar, mas não por escolha – é a natureza, de novo. Quando ele finalmente fisga um peixe, maior que a sua canoa, ele nada pode fazer a não ser se deixar levar por ele, que nada cada vez mais para longe da costa, e esperar que o peixe morra algum dia e possa ser fisgado. O peixe, que é tão bonito, que é seu irmão, mais um solitário ambulante do mar azul do Caribe, e que nunca seria páreo para um humano a não ser por um truque tão desonrado que é jogar uma isca. É uma história sobre a impotência do indivíduo diante da natureza.

Continuar lendo

Velho mundo versus novo mundo ou só Lolita?

Lolita: primeira e última palavra do romance homônimo de Vladimir Nabokov (1955). O europeu Humbert Humbert, pedófilo, se apaixona de maneira incrivelmente ingênua por Dolores Haze (ou Lô, ou Dolly, ou Lolita), menina norte-americana de doze anos, menos culpada mas também menos ingênua que seu velho “pai”. Lolita impressiona pela estrutura impecável e a deliciosa narrativa intimista em primeira pessoa, além da facetas múltiplas que vai adquirindo conforme os capítulos vão passando: primeiro romance romântico lambuzado, então um filme desses de estrada, até que a paranoia de H. H. transforma tudo em uma história de suspense.

Um traço bem interessante em Humbert é a constante justificação de seus modos. A pedofilia, como ele deixa bem claro logo no começo do livro, só pode ser, pensa ele, consequência de seu amor infantil interrompido, quando sua jovem amante Annabel morreu precocemente. Também constata, em seu fluxo de pensamentos, que Lolita é mais safada do que se esperaria: primeiramente ela o seduz, então usa de seu suposto charme para extorquir dinheiro e depois, nem virgem a menina é. Mas, claro, o livro é em primeira pessoa e várias vezes a parcialidade de Humbert é posta em dúvida, não por más intenções já que ele se sente, e sempre se sentiu, culpado, mas pela intensidade de seus sentimentos.

O sentido mais literal do livro é muito bom, sim. Mas, nesses últimos dias, reli a obra com outras ideias na cabeça, mais especificamente a ideia de corrosão do Novo Mundo, as Américas, no caso, EUA, pelo Velho Mundo, a Europa (ou também o contrário, as duas visões são possíveis e, para mim, até complementares). Pensando assim, o jogo novo versus velho teria tudo a ver com o tema de pedofilia. Ambos, Humbert e Dolores, já tem seus desvios morais mesmo antes de se conhecerem, mas os resultados após seus anos juntos seriam irremediáveis para ambos: o adulto tirou da criança sua luz e alegria de vida, e ela, por sua vez, o devastou completamente, o levou a ruína pelo amor que H. sentia.

Em uma nota adicional, após ter lido o original, reli em versão traduzida por Jorio Dauster e me impressionei bastante com a qualidade, recomendo. E, para fechar, um parágrafo interessante do próprio Nabokov sobre Lolita e o fato de este não ser um livro erótico e, ao mesmo tempo, não ter lição moral alguma (dois fatores que aparentemente não se combinam na cabeça de certas pessoas):

Presumo que haja leitores que se excitem com o vocabulário chulo daqueles romances enormes e irremediavelmente banais, datilografados por autores medíocres com os polegares mas caracterizados como “vigorosos” ou “intensos” pelos críticos de plantão. Há boas almas que considerarão Lolita irrelevante porque não lhes ensina nada. Não escrevo nem leio obras de ficção com fins didáticos, e, a despeito da afirmação de John Ray, Lolita não traz nenhuma moral a reboque. Para mim, um romance só existe na medida em que me proporciona o que chamarei grosso modo volúpia estética, isto é, um estado de espírito ligado, não sei como nem onde, a outros estados de espírito em que a arte (curiosidade, ternura, bondade, êxtase) constitui a norma. Não há muitos desses livros.

Capitães da Areia, de Jorge Amado

 O jeitinho que o Jorge Amado conta histórias — independente de estrutura, sintaxe, conteúdo intelectual — é algo que Dostoiévski nenhum jamais soube fazer. Devo perdão à biblioteca por ter deixado algumas marquinhas úmidas no livro, inclusive.

O romance é dividido em três partes, e os meus comentários sobre ele idem. Na primeira delas, “Sob a lua, num velho trapiche abandonado”, eu não me importaria nem um pouco se Jorge só continuasse descrevendo os personagens, para sempre. Cada um dos meninos-homens abandonados, integrantes dos Capitães da Areia, tem sua história, todas lindas, impossível não criar afeição. O leitor é apresentado a dura realidade da cidade baixa lá pela década de 30, na época do início da ditadura getulista. O ambiente em que vivem é o culpado pelos roubos dos meninos, que muito cedo conhecem a maldade e a malícia do mundo. Ainda assim, eles têm uma alma livre.

Na segunda parte, “Noite da grande paz, da grande paz dos teus olhos”, chega Dora, a pequena Maria Bonita de Salvador. Também chega uma angústia suprema, da repressão, do amor e da morte.

E em “Canção da Bahia, canção da liberdade” todo o sentimento de revolução social que vem se argumentando com o decorrer do livro, querendo crescer, finalmente explode. Tanto como cangaceiros, grevistas, pintores (que retratam a situação de miséria dos jovens), os Capitães da Areia amadurecem e pela politização saem da vida de crime pelo crime para pecar só em nome da pátria e da família dos pobres. Não é surpresa, portanto, que o livro foi considerado propaganda comunista e censurado em época de ditadura.

Imagem do filme de Cecília Amado (que estou bem ansiosa para ver, por sinal)

O Processo, de Franz Kafka

“Alguém certamente havia caluniado Josef K. pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum.”

A primeira frase do livro é clara, assim como era claro para K. que sua culpa era nula. Mas isso antes de sua “detenção”.  Na manhã do seu aniversário, ele é surpreendido por dois guardas, encarregados de avisá-lo de que é alvo de um processo. Os guardas são subalternos de hierarquia muito baixa e nada sabem ou podem informar sobre o caso, e na audiência que se segue, e também no inquérito, todos são funcionários de baixo calão que apenas cumprem ordens. Preso na burocracia, K. nunca saberá qual foi seu crime, se é que de fato ele existiu.

O livro é metafórico, o que o torna hermético no sentido de que abre caminhos para infinitas interpretações, todas de certa forma verdadeiras. “A compreensão correta de uma coisa e a má compreensão dessa mesma coisa não se excluem completamente”, como é citado no livro; e se eu ignorasse que a obra é póstuma e escrita sem intenção de ser lida diria que essa frase foi colocada a fim de atordoar o leitor, que tenta encaixar as peças. Em uma rápida busca no Google, fui capaz de encontrar as mais loucas teorias de interpretação, todas interessantes. Mas vou falar aqui da minha própria, que é bem simplória comparada com as outras, mas é a minha percepção da obra.

Primeiramente, existem dois planos de interpretação para esse tribunal estranho, e elas não se excluem ou contradizem de forma alguma. Uma é a “literal”, apesar de não ser puramente assim, mas é o que logo entende-se ao ler as primeiras páginas. O fato de os tribunais estarem localizados sempre acima do povo, separados for cansativas escadarias, ou de estarem presentes ratazanas e ilustrações pornográficas, é obviamente metafórico. Mas a burocracia, a hierarquização, a facilidade de suborno e o conceito de “razão de Estado”  acima de tudo, de modo que esse não deve justificações ao povo, são literais. Os juízes retratam-se como deuses, superiores, acima da esfera da razão mundana. É conhecido o desgosto de Kafka, que já foi advogado, pelo Direito. Também sei, por uma pesquisa histórica breve e não muito aprofundada, que o Império Austro-Húngaro era um estado muito autoritário em um período de tempo ligeiramente anterior à Primeira Guerra Mundial.

A outra interpretação é que esse tribunal é um tribunal da sociedade, no sentido de que os “outros” estão sempre observado, comentando, fofocando e julgando, mesmo sem leis para tal. Várias referências surgem a esse respeito no livro. Quando K. e Titorelli estão conversando e as meninas estão importunando na porta, o pintor diz: “Essas meninas também fazem parte do tribunal”. Como K. fica atônito, ele explica que “tudo pertence ao tribunal”. Ou quando a senhora Grubach faz insinuações sobre a senhorita Bürstner e K. reage de maneira violenta, indignado, pois também se vê, agora que é acusado, como um marginal, e repudia insinuações das quais possivelmente também é alvo. Seu tio fica sabendo do processo via uma sucessão de fofocas, ele “ouviu falar”, como diz, e K. repudia tudo isso. Fica claro como K. se importa com seu status social, com as aparências, ainda mais quando se trata de seu cargo no banco. Mas a partir do momento em que é acusado, mesmo que antes se julgasse inocente, ele vai assimilando a culpa. Esse tribunal da sociedade julga e não se importa em comunicar qual foi o crime do acusado; não há defesa que funcione verdadeiramente pois uma vez formulada uma opinião, ela não muda, e não se importa com argumentos que digam o contrário; a condenação é certa. Também na parte em que Titorelli esclarece um pouco o funcionamento do tribunal, ele cita a absolvição real (impossível), a absolvição provisória (na qual o processo fica pausado, mas os arquivos ainda estão lá para que possam, e provavelmente irão, ser usados contra o réu no futuro) e o processo arrastado (consiste em arrastar o processo muito lentamente, evitando a condenação), conceitos facilmente assimilados com a ideia do tribunal da sociedade.

Quanto mais K. tenta se salvar do absurdo, mais se afunda. A Igreja, como se observa no capítulo Na Catedral, também está ligada a tudo isso, pois é um instrumento julgador muito forte. A relação de K. com as mulheres é depreciada pelo capelão; as mulheres estão sempre presentes na obra, senão como amantes de K., pelo menos como admiradoras, como se algo nele as atraísse. Do capelão, que também faz parte do tribunal, para K.:

– Procuras demasiado o auxílio de estranhos – disse o padre com um ar de desaprovação – e em especial o das mulheres. Não vês que esse não é o verdadeiro auxílio?
– Algumas vezes, mesmo muitas, podia dar-te razão – disse K. –, mas sempre não. As mulheres têm um grande poder. Se eu conseguisse que certas mulheres que conheço trabalhassem em conjunto a meu favor, não tenho dúvidas de que triunfaria, especialmente numa justiça como esta que é quase toda constituída por homens que são uns autênticos doidos por saias. Experimenta mostrar, ao longe, uma mulher ao juiz de instrução, e vê-lo-ás derrubar a mesa e o acusado só para chegar a tempo.

Também em outra fala do capelão para K. fica claro como este perdeu seu anonimato:

– És Josef K. – disse o padre, levantando a mão por cima do parapeito num gesto vago.
– Sim – volveu K., pensando como dantes pronunciava o seu nome com toda a franqueza e como, ultimamente, este era para ele um verdadeiro fardo; agora, pessoas que encontrava pela primeira vez, conheciam-lhe o nome. Como seria agradável só ser conhecido depois de ter sido apresentado.

A última frase do livro se encaixa, senão mais que tudo que citei acima, nesta visão de que K. é marginalizado e consequentemente julgado, de forma obviamente injusta, pela sociedade. Mas apesar de isto ser uma crítica, e não resenha, tenho medo de estragar a grande epifania final de algum leitor desavisado que ainda não tenha lido O Processo.

Como a obra é póstuma e organizada originalmente por Max Brod, amigo de Kafka, é válido observar alguns problemas de continuação. O livro na verdade é composto de fragmentos. Kafka se arrastou por um longo período para escrever a obra, e ainda assim não a finalizou. Às vezes, quando estava escrevendo um capítulo que não fluía, passava para o próximo, deixando-o inacabado. A ordenação dos capítulos também não é certa, e existem erros na ordem proposta por Brod, como por exemplo um capítulo que cita o inverno vem antes de outro que cita o outono. Por isso aconselho a leitura de uma versão que inclua também os capítulos excluídos, não finalizados e as passagens riscadas.

PS.: Estou com vontade de ler estes quadrinhos, apesar de preto e branco não ser bem a minha coisa. Se achar pra vender, comento por aqui.

O Conto da Ilha Desconhecida, de José Saramago

Aquarela de Arthur Luiz Piza

Como se fosse uma parábola, me sinto discípula de Saramago ao ler este conto. Começa assim: o homem quer um barco para encontrar uma ilha desconhecida. O pra quê de encontrar a ilha tanto faz, até porque este tal homem também é homem, e buscar é sua natureza – sempre buscando, infinitamente. Vai pedir o barco para o rei, se depara com uma burocracia ferrenha para que possa pedir algo (já a burocracia dos obséquios nem existe). E afinal, ilha desconhecida? Como todos sabem e insistem em dizer, todas as ilhas já estão nos mapas, a época dos descobrimentos já acabou, não há nada de novo. Irônico isso, igualzinho à fase científica que temos passado na visão dos não cientistas desde 1997 (publicação do conto) até agora.

Partindo de Fernando Pessoa, “para viajar basta existir”, o homem e a mulher, a única que se interessa em juntar-se a ele, viajam em sonho mesmo.

O homem nem sonha que, não tendo ainda sequer começado a recrutar os tripulantes, já leva atrás de si a futura encarregada das baldeações e outros asseios, também é deste modo que o destino costuma comportar-se connosco, já está mesmo atrás de nós, já estendeu a mão para tocar-nos o ombro, e nós ainda vamos a murmurar, Acabou-se, não há mais que ver, é tudo igual.

A morte e a morte de Quincas Berro Dágua

Entre os “castelos” e botequins da Bahia, vive/viveu/vivia Quincas Berro Dágua, vagabundo de muitas mortes. Antes dessa vida boêmia, era Joaquim Soares da Cunha, homem de respeito, de família honrada. Mas a morte de Joaquim é só a primeira das mortes, mais algumas ainda estão por vir, não se faz muito consenso de quantas. Aliás, também não há clareza de hora, local ou frase derradeira.

Jorge Amado é um grande contador de histórias. Traz as absurdices da tradição oral para o papel, costura, amarra, redireciona, tira um detalhe, coloca outro e aquele causo que qualquer autor poderia ter escrito, caso estivesse ali na hora da contação, se transforma em obra inigualável.

O cenário, delicioso. Todos os vagabundos da Bahia em suas festas regadas a álcool. Os personagens cativam, principalmente Quincas e seu carpe diem. Seus amigos encantam pela admiração a figura de Quincas e também por suas maluquices inconsequentes.

É leitura rápida e leve, de um ou até dois dias. Rápida, talvez demais: me deixou com vontade de ler mais Jorge Amado. E leve na medida certa, aquele tipo de livro que desenha um sorriso no rosto.

Ensaio sobre a cegueira

E temos aqui um merecedor da tag obra-prima. Agora me arrependo de ter demorado tanto para ler, o fuzuê por causa do filme passou e eu simplesmente não me interessei, grande erro.

A primeira impressão sobre o livro é: Saramago, o que você tem contra parágrafos?? Pra quem não está habituado com o escritor português, parece sem sentido o modo como ele coloca as falas, o modo como os períodos não acabam nunca. Mas aí os capítulos começam a passar, e eles vão passando e então você percebe, a coisa tem ritmo! Acho que o momento em que eu percebi isso foi quando eu me apaixonei. Livro impossível de parar na metade, o que eu nunca imaginaria encontrar em algo tão sombrio como Ensaio sobre a cegueira.

A trama é de alguma forma simples mas ao mesmo tempo a ideia que se passa é complexa, por todos os sentidos que podem ser compreendidos e que exigem que o leitor se conecte. Muito tocante. Saramago disse que espera que o leitor se perturbe com a trama tanto quanto ele se sentiu perturbado ao escrevê-la. E realmente, é pesado, não por causa de cenas fortes que aparecem aqui e ali, mas pelo clima que envolve tudo.

Gosto muito do jeito que ele chama as personagens, a rapariga dos óculos escuros, a mulher do médico, o rapazinho estrábico, nunca citando nomes. Afinal, são todos animais, lutando pra ter o que comer e beber nessa epidemia de cegueira que acabou com a humanidade sem acabar com os humanos. E as mulheres… elas têm um lugar todo especial na visão do Saramago. Não de um jeito sexista, generalista, só de um jeito que trata os diferentes como diferentes que são, e portanto tem reações diversas à tragédia, ao desespero, à miséria e à falta de dignidade.

O Evangelho segundo Jesus Cristo entrou para a minha listinha, e é bom que corresponda as minhas expectativas, depois de ler Ensaio elas estão lá em cima.

Ah, e agora um mistério, alguém sabe o que significa essa capa (a que eu coloquei a imagem no começo)? Estou há um tempão tentando decifrar, se alguém souber favor compartilhar haha.

Watchmen

Escrito por Alan Moore, desenhado por Dave Gibbons e colorido por John Higgins, Watchmen não conta uma grande história, mas a conta de um jeito grande. Em uma realidade alternativa na qual super-heróis surgiram na década de 40 e mudaram o rumo dos Estados Unidos, agora na década de 80, em plena Guerra Fria. Moore desconstrói a figura do herói, colocando-o em um meio extremamente realista, coisa muito original em quadrinhos da DC na época (porém o estilo foi amplamente copiado na décadas seguintes).

A estética é excepcional. Gibbons tem um traço forte e diferenciado, além de uma habilidade notável com expressões. Só deixa a desejar no desenho das mulheres (Thierry Mugler demais), mas talvez seja só questão do meu estilo colidindo com o dele. Higgins fez uma ótima escolha da palheta, destaca as cores secundárias, principalmente o roxo (não óbvio). Manipulando as cores, ele vai fazendo um degradê das cenas sombrias até chegar no clímax da história. A composição dos quadrinhos é clássica, em geral nove por página, mas um destaque especial ao capítulo “Terrível Simetria”, em que o layout da primeira página é simétrico ao da última, o da segunda ao da penúltima e assim por diante, gerando um enquadramento épico nas páginas centrais. Muito bem construído.

Página central do capítulo “Terrível Simetria”

Para mim, acostumada com as ilustrações da DC mas não muito familiar com as graphic novels em si (gosto muito de vários ilustradores; nem reconheço o nome dos roteiristas) Watchmen foi uma ótima iniciação.