Universo Desconstruído: contos de ficção científica feminista

ilustração por Tais FantoniA ficção científica é um gênero utópico ou distópico por definição. Ela se propõe a observar o presente, suas falhas e esperanças, e alongar a linha, imaginando um futuro. Ou seja, desde Asimov até Bradbury, a FC sempre foi terreno fértil para a crítica social, ou pelo menos, para algumas críticas sociais.

A mulher, ainda mais a mulher trans*, negra, homossexual, é invisibilizada. Renegada a estereótipos superficiais ou personagens secundários, incapaz e dependente. É uma situação que precisa de esforço ativo para ser mudada; sentar e esperar não ajuda. Pensando nisso, Aline Valek e Sybylla organizaram uma coletânea de contos que colocam a mulher no centro.

Os contos por vezes imaginam como seria o mundo se, finalmente, conseguíssemos nos desvencilhar de nossos preconceitos. Assim ficamos conhecendo protagonistas incríveis que talvez não teriam desabrochado nos dias de hoje, como é o caso da forte e justiceira Electra (Codinome Electra, Lady Sybylla).

Outras vezes conhecemos o outro lado da moeda, a opressão dos dias de hoje correndo solta e impunível. Nesse cenário, vemos mulheres sofridas, mas ainda fortes o suficiente para lutar por suas irmãs. A astropaleontóloga de Requiém para a humanidade (Thabata Borine), que tem seu caminho obstruído pela constante incredulidade e violência. A gênia da robótica Diana, de Eu, incubadora (Aline Valek), que, apesar do marido invejoso, inventa uma saída criativa para o seu problema. A esperta e perigosa Luísa e a infeliz Irina, de Cidadela (Lyra Libero). A neurocientista mais ou menos morta Isabel, de Projeto Áquila (Gabriela Ventura).

As personagens cativam por sua profundidade. Nenhuma é igual a outra, assim como na vida real, um fato que a ficção científica falhou tantas vezes em retratar. Ler um livro assim é se sentir compreendida.

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Asterios Polyp, de David Mazzuchelli

Basta folhear Asterios Polyp para entender porque é um sucesso de críticas. As cores maravilhosamente selecionadas brincam de se combinar com suas análogas e complementares, compondo a paleta perfeita para cada par de páginas, que por sua vez compõem a paleta perfeita para o livro. Após essa primeira impressão, paro para observar mais atentamente os traços certeiros que desenham personagens bem elaborados. Está decidido, é esse mesmo. Passo no caixa e pago. E Asterios Polyp não precisou nem de meio minuto pra me convencer.

O Asterios do título é um arquiteto bem sucedido, mas “de papel”, termo utilizado para designar um arquiteto cujos projetos nunca são construídos. A história se divide por dois pontos de vista intercalados: o de Asterios e o de Ignazio. Ignazio é o irmão gêmeo do protagonista que não sobreviveu ao parto. Ele representa a dualidade e a simetria, tão preciosas para o irmão, que foi perdida. Através dele ficamos sabendo do passado de Asterios, um homem que segue à risca a regra da utilidade em sua vida – odeia enfeites, são desnecessários -, que enxerga o mundo em linhas retas, cheio de si. Asterios já foi casado com Hana, uma mulher delicada e fluída, a quem constantemente ofuscava e de quem inevitavelmente se divorciou. Já a história que o próprio arquiteto nos conta é uma história de mudanças. Inicialmente sozinho na vida, um incêndio destrói seu apartamento, deixando-o perdido. Levando apenas três objetos que conseguiu resgatar, foge do mundo que conhece e vai morar em uma cidade do interior, trabalhando como mecânico e morando na casa de seu patrão.

  Todos que leram Asterios Polyp tem que admitir que o fizeram por causa da arte de tirar o fôlego. Mas a história é colocada de um modo muito interessante, criando equilíbrio entre os elementos dos quadrinhos. David Mazzuchelli sabe muito bem os recursos que tem, e utiliza todas as suas possibilidades para extrair o máximo deles.




Logicomix: uma jornada épica em busca da verdade

Na Oresteia, de Ésquilo, Atena, deusa da sabedoria e da estratégia, utiliza sua lógica para resolver uma questão complicada sem recorrer à figura da autoridade, comum nos sistemas anteriores: inventa o júri popular. Desde a Grécia Antiga, o homem busca a difícil definição de raciocínio válido, e quando o conceito é tão volátil, é mesmo natural que a tarefa seja delegada apenas a deuses. Mas no século XX a ciência da Lógica cresce realmente, de maneira irônica entre guerras mundiais e crises. Bertrand Russell, Gottlob Frege, David Hilbert, Kurt Gödel, Ludwig Wittgenstein, John von Neumann, entre outros pensadores, guiam Logicomix na sua “jornada épica em busca da verdade”, como diz o subtítulo.

Bertrand Russell, ainda jovem, descobre a matemática e a eterna ambiguidade que ela traz na sua vida: por um lado a promessa de uma sociedade racional oferece conforto a um menino tão cheio de incertezas; por outro, o medo da loucura, tão contrário à Lógica mas tão comum em cientistas da área. Mais tarde, na universidade, descobre que a Matemática se encontra em crise. Os matemáticos da época apoiam-se em pilares que se apoiam em outros pilares que por sua vez se apoiam em mais alguns pilares qualquer, mas no final tudo isso está empilhado em cima do vazio, ruindo. São axiomas vazios. Russell, alucinado, passa boa parte de sua vida indo atrás dos fundamentos que estão faltando.

As ilustrações fortes, firmes e limpas de Alecos Papadatos e Annie di Donna impressionam primeiramente pela finalização impecável. A construção dos personagens, em se tratando de pessoas reais, também é ótima e divertida (exemplo: pesquisa de personagem do Bertrand Russell).

Estes quadrinhos não pretendem ser um manual de lógica para principiantes, longe disso. É uma história, como tantas outras, sobre pessoas e suas paixões – não se deixem enganar pelos personagens matemáticos. Uma história, inclusive, ficcional, mas na maior parte do tempo muito justa com a realidade. Genial. No final da Oresteia, as Fúrias dizem: “regozijai-vos, cidadãos felizes que apreciam a verdadeira sabedoria!”. Felizes eu não sei, loucos talvez, mas regozijai-vos com Logicomix.

Logicomix: uma jornada épica em busca da verdade, de Apostolos Doxiadis e Christos H. Papadimitriou, com arte de Alecos Papadatos e Annie di Donna. 347 páginas. Editora Martins Fontes.

Areia nos Dentes e as 150 páginas

Areia nos Dentes, de Antônio Xerxenesky, tem um grave problema: é curto demais. Livro muito criativo, ganha pontos pelo enredo genial. Se às vezes me incomoda a falta de profundidade de alguns personagens que poderiam ser mais explorados, o livro me satisfaz pela sua construção original e trama eletrizante. Pra ilustrar o meu ponto, uma passagem:

Sombras de cavalos e pessoas cavalgam e caminham nas casas de madeira clara. Os ouvidos de Juan escutam somente o vento e a areia. Ele nada pressente. O sol do meio-dia está eclipsado por uma nuvem cinza. Agacha-se e põe a cabeça contra o solo. Não há passos ou movimento em um raio de quilômetros. Levanta-se. Sua orelha fica cheia de areia por fora e por dentro. Uma esfera de poeira se aproxima. Abre a boca e sente pequenos grãos de areia se grudarem nas frestas de seus dentes, a sensação mais desagradável que conhece. Tenta cuspir parte da areia, mas, ao abrir a boca para isso, tudo que consegue é absorver outro punhado de grãos. Fecha a boca em desistência. Aguarda. Caminha. Olha. Espera.

Gosto bastante desse parágrafo. E com base nele o romance teria fôlego para muito mais que contar uma história legal – fôlego pra amarrar tudo isso numa narrativa chorável e com personagens mais opacos (pra usar o termo do James Wood). Só que, mais uma vez, é aquele caso do livro nacional contemporâneo que tem mais ou menos 150 páginas.

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Daytripper, de Fábio Moon e Gabriel Bá

Daytripper é uma história estelar construída do melhor jeito possível. Das ilustrações – realistas, sensuais na medida, traço firme e grosso – passando pelo arranjo das páginas – aquela disposição mais moderna dos quadrinhos, algumas cenas épicas bem posicionadas para maior dramatização – até as cores – palhetas maravilhosamente escolhidas por Dave Stewart – tudo conspira para o efeito grandioso: a celebração da vida. Vida essa que inclui muitas mortes, também devidamente celebradas.

Brás de Oliva Domingos, filho de um grande escritor brasileiro, trabalha escrevendo obituários para um jornal, sonhando com sua obra-prima. Sua vida é como um livro a ser escrito, cheio de possibilidades que vão se expondo conforme segue a narrativa. Narrativa não linear, como pede o fluxo de consciência. Cada capítulo é um novo começo de vida (o dia do seu primeiro beijo, o do nascimento de seu filho, ou o que se encontra como escritor) mas também uma morte, tratada como parte crucial do romance da vida. Nenhum livro é completo sem seu final.

 

O grande desafio da ilustração são as emoções. Grande coisa um desenho bonitinho e proporcional. Mas a profundidade dos olhos mais maduros de Brás não mente. Vê-se a alma por trás de cada traço que faz uma ruga. As ilustrações de abertura de capítulo te fazem querer chegar logo ao próximo só para admirar.

Vencedor do prêmio Eisner e mais vendido da lista do The New York Times ao mesmo tempo, Daytripper alcançou o tão difícil equilíbrio entre sucesso de crítica e sucesso de vendas. Já é um clássico das HQs – e os gêmeos ainda prometem mais.

A metaliteratura de Antônio Xerxenesky

Escritores, leitores, livros e gente que gosta de livros. Na coletânea de contos A Página Assombrada por Fantasmas, Xerxenesky arranca um suspiro de deleite nos leitores ávidos, aqueles que não gostam só de ler, que gostam de falar sobre a literatura, como se ela transcendesse as páginas.

Seja para acalmar seu leitor com seu cheiro bom de papel ou para encher a cabeça de paranoias, em teorias não comprovadas de uma ligação da ficção com o real, os livros estão lá, sempre presentes durante os nove contos. Mas, uma vez que esse tema comum amarra o livro, o autor está livre para variar em tudo o mais. Dos enredos mais criativos e mirabolantes ao jeito de narrar, Xerxenesky vai brincando de experimentar e é aí que A Página ganha seu brilho.

No conto que dá nome ao livro, a narradora descreve uma Buenos Aires assombrada por Jorge Luis Borges. Nesse conto mais especificamente, mas em todos os outros também, vem a tese de que o que se sabe de um texto antes de ler, a situação e ambiente que envolve o leitor e tudo que já foi lido antes por ele é tão, se não mais, importante do que o texto que se tem em mãos no momento. O leitor é o coautor do livro.

“Reparação” e a natureza da escrita

Leitura obrigatória para todos os escritores, críticos e leitores ávidos. “Reparação”, de Ian McEwan  é um dos meus romances favoritos e o meu favorito do autor, então não esperem nem um pouco de imparcialidade (afinal, isso aqui é um blog). O engraçado desse livro é que li umas 20 páginas e desisti dele – eu raramente faria isso com livro algum, a curiosidade não me permite. Mas, por trás da lingugagem bem escolhida e dos interessantes conflitos psicológicos da jovem Briony nas páginas iniciais, eu previa um final chato e açucarado. A ideia que eu tive no meu primeiro contato com a obra foi mais ou menos assim: numa casa de campo na Inglaterra de 1935, Cecilia, de classe média alta, se apaixonaria por Robbie, filho da empregada da casa, e os dois viveriam seu amor proibido, com a desaprovação da família de Cecilia, etcetera, etcetera, muito chato, muito clichê.

Como podem perceber, eu mudei de ideia. Alguns meses depois, numa biblioteca, o livro estava lá, em cima de uma mesa, olhando pra mim – eu comecei a ler mais algumas páginas e me apaixonei. Um começo ruim, mas o resto compensa, será? Não, não. Nem de longe. Um começo brilhante. Conforme a leitura progride, as intenções do começo vão ficando claras, até que, quando você termina o livro, já está pensando na genialidade de McEwan – que começou um romance nada óbvio da maneira mais óbvia possível. Talvez o conceito dessa tal genialidade seja meio difícil de entender assim, ou até difícil de explicar. Reparação é um livro que vai do impressionismo ao realismo, com maestria.

Briony, a irmã caçula dos Tallis, tem 13 anos e é uma escritora prodígio. Em busca de inspiração para suas obras, ela acaba testemunhando cenas, que do seu ponto de vista ingênuo, são bárbaras. Sua irmã, Cecilia, e o filho da empregada, Robbie, discutem na beira de uma fonte na propriedade dos Tallis. Briony, intrigada, assiste à cena da janela, sem que os dois percebam. Na verdade, Cee e Robbie, no auge de sua tensão sexual, brigavam e acabaram quebrando um caro vaso da família, que Cee pretendia encher de água. Irritada, ela tira a roupa para mergulhar na fonte e resgatar os pedaços do vaso. Após mais alguns desencontros que fazem Briony pensar o pior, num jantar na casa dos Tallis, a caçula surpreende Robbie e Cee na biblioteca, transando. Pronto, sua opinião foi formada: Robbie só pode ser um maníaco sexual. E quando Lola, prima dos Tallis, é estuprada nos fundos da propriedade e não sabe dizer quem é o culpado, Briony junta as “peças” na sua cabeça e julga que o criminoso só pode ter sido Robbie. Conforme a menina cresce e amadurece, vai percebendo que sua acusação era falsa, porém as consequências vão repercurtir por toda sua vida.

McEwan usa a relação entre livro e autor e os diversos planos de realidade (a histórica, nossa realidade; a ficcional porém real no mundo de Briony; e a ficcional criada por Briony em seu livro) para discutir o papel do escritor e a natureza da escrita. Quem dará o perdão ao novelista, se ele é o criador, o deus da sua obra, e não há ninguém superior para recorrer?

 

Cenas do filme: do impressionismo das cenas bucólicas e românticas ao realismo da guerra.