A Sangue Frio, de Truman Capote

   A Sangue Frio é a obra-prima de Truman Capote. O relato, batizado pelo autor de “romance de não-ficção”, segue o desenrolar dos acontecimentos do dia 15 de novembro de 1959 na casa dos Clutter, desde o último dia de vida de Bonnie, Herb, Nancy e Kenyon Clutter até a execução dos dois assassinos. A rica família do interior do Kansas fora amarrada, amordaçada e executada com um tiro na cabeça de cada um, sem motivo aparente. O mistério envolveu os 270 habitantes da cidade de Holcomb em fofocas e medo durante anos: nunca antes algo tão grande havia ocorrido ali. Ainda assim, nos grandes jornais americanos a história não passara de uma nota. Os inspirados olhos de Capote, porém, encontraram uma notícia de apenas 300 caracteres no The New York Times e enxergaram um potencial que só ele podia entender. Alguns dias depois, partiu para Holcomb, Kansas, e começou os seus trabalhos.

Segundo Capote, foram mais de oito mil páginas de dados extraídos de entrevistas, todas realizadas sem gravador ou bloco de notas para evitar assustar os entrevistados. De todo o conteúdo apurado, apenas 20% foram utilizados. O resultado é uma narrativa envolvente e bem romantizada. A medida que as vítimas são apresentadas, quantidade igual de páginas é gasta com as histórias dos assassinos. Tão chocante quanto a morte de inocentes é a humanização de seus executores. A vida pregressa de Perry Smith, principalmente, é contada detalhadamente e a partir do seu próprio ponto de vista, o que leva à pergunta: como Capote extraia certas informações? O relacionamento íntimo do autor com Perry enquanto este esperava no corredor da morte certamente compromete a imparcialidade e moralidade da obtenção das informações. Fontes usadas no livro declararam que seus relatos não foram usados fielmente, e que Capote inclusive inventara cenas inteiras. A fama de Capote de mentiroso também não ajuda. Todas essas dúvidas não chegam a diminuir o brilho de A Sangue Frio, mas fazem o leitor questionar se Truman Capote não seria um romancista acima de jornalista.

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Persépolis, de Marjane Satrapi

Marjane Satrapi cresceu perdida entre revoluções, guerras e ideologias. A menina iraniana, bisneta de um imperador do país, foi obrigada a encarar sua eterna dicotomia desde cedo: os pais sempre a ensinaram valores liberais e de esquerda, mas bastava olhar para fora de casa para se deparar com o extremismo religioso. Vivenciou o regime do Xá, sua queda via revolta popular e gradual transformação em ditadura islâmica, a guerra Irã-Iraque. Por meio dos quadrinhos, Marji conta sua história em francês mesmo, para os ocidentais, e faz finalmente com que se entenda o que é o Irã.

Quando pequena, Marji se via ligada a religião de um jeito estranho: queria ser profeta. Apesar de sua criação liberal, o regime a influenciava. Mas certas coisas ela não podia deixar de notar, como a sensação de incômodo quando andava no Cadillac chique da família, ou sua aflição de ver que a empregada da casa tem de mentir que é sua irmã para namorar o vizinho. Mas a menina cresce e começa a entender melhor as coisas. Sua pretensões religiosas desaparecem. Daí pra frente a situação começa a ficar ainda mais delicada no Irã. Seu tio Anuch, revolucionário e motivo de orgulho para ela, é executado pela ditadura. A guerra esquenta. A cultura do mártir se desenvolve. Os pais Satrapi não veem outra escolha a não ser mandar a filha para fora. Na Europa, Marji se descobre livre. Mas lá é uma estrangeira, uma oriental. Já no Irã, é considerada ocidental demais.

Marjane se utiliza de um traço infantil em preto e branco. Uma coisa meio xilogravura. Poderia ter sido mais realista, mas não ia conseguir chocar tanto. Os diálogos são preenchidos de graça com um recurso semelhante. Se por um lado existe a guerra e o terror, Persépolis também consegue divertir, fazendo piada das pequenas coisas.


Em 2007, a autobiografia virou um longa-metragem animado, do qual eu gostei bastante. É visualmente bem fiel ao livro, até porque é dirigido pela própria Marjane. Explora alguns recursos a mais, como a utilização de cores em algumas partes, o que é bem útil ao propósito do longa. Mas as melhores partes ficaram no livro mesmo.

Como funciona a ficção, de James Wood

Só alguém tão entendido de literatura conseguiria escrever um livro desses, falando de Henry James, Flaubert, estilo indireto livre e outros assim, tão leve e descontraído. Aí James Wood ganha muito pontos, conseguindo o que tantos críticos famosos falharam em conseguir. Desculpem o momento frase clichê, mas já dizia Eistein, se a pessoa não sabe explicar algo de maneira simples, ela não o entende suficientemente bem. E tem mais: se Milan Kundera, para dar um belo exemplo, escreve lindamente sobre a arte literária, Wood é menos romancista e mais crítico, prático e objetivo.

Como funciona a ficção é divido em capítulos que tratam da narrativa, dos detalhes, dos personagens, da linguagem, do diálogo, do realismo, além de dois capítulos dedicados a Flaubert (um sobre a narrativa moderna, que Wood considera derivada de Flaubert, e outro sobre o surgimento do flâneur, no qual o personagem vai andando pelas ruas e observando). Em cada capítulo, o crítico vai dando exemplos e destrinchando alguns trechos, partindo do particular para chegar a uma reflexão mais geral de tal ocorrência na literatura.

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Freakonomics (Steven Levitt e Stephen Dubner)

“Por que o senso comum esta tão frequentemente enganado? Como ‘especialistas’ – de criminologistas a agentes imobiliários a cientistas políticos – moldam os fatos? Por que saber o que medir, e como medir, é a chave para entender a vida moderna?” São essas algumas das perguntas que o economista Steven D. Levitt e o jornalista Stephen J. Dubner respondem em seu livro Freakonomics – O lado oculto e inesperado de tudo que nos afeta (o primeiro da série).

Para isso, usam técnicas da economia moderna, como aplicar os princípios econômicos para explorar situações cotidianas e diversas, mas não falam de taxa de juros ou inflação. O próprio nome do livro, que quer dizer algo como “economia excêntrica”, revela o real propósito: Levitt tem uma linha de pensamento que se afasta da maioria dos economistas.

Com ideias simples, vão desmistificando certas crenças. Usando o método da comparação de dados, conseguem comparar cientificamente várias situações que antes eram apenas suposições, como por exemplo a redução da criminalidade em Nova York ser causada pela legalização do aborto. Aliás, a relação de causalidade e consequência é muito explorada em todos os capítulos.

Cada capítulo trata sobre uma certa temática e pretende responder uma pergunta, em geral bem inusitada. Para exemplificar o livro melhor, falarei sobre o primeiro capítulo. Esse trata da corrupção e seus causadores.

A economia é o estudo dos incentivos. Com um alegoria sobre uma pesquisa realizada em creches israelenses, Levitt discorre sobre incentivos econômicos, morais e sociais. Nessas creches, a regra bem definida era: horário de fechamento, às 4. Mas, é claro, alguns pais se atrasavam, e então pelo menos mais um profissional tinha que ficar na creche após seu expediente, o que é bem inconveniente.  Nas duas primeiras semanas, apenas observou-se a quantidade de crianças remanescentes após às 4. Na terceira semana, foi enviado às famílias um comunicado, avisando que atrasos seriam multados em 3 dólares. Então, o número de atrasos… subiu. O incentivo moral antes existente (a sensação de culpa ao chegar atrasado para pegar os filhos) foi substituído por um incentivo econômico, mas que não era forte o suficiente para fazer com que os pais acabassem seus compromissos com antecedência.

Esse microcosmos das creches exemplifica o que acontece na política, por exemplo. Comparar pesquisas, mostrando muitos dados e então chegar a conclusões brilhantes; isso numa linguagem leiga e bem fluída: essa é a fórmula de Freakonomics.