Persépolis, de Marjane Satrapi

Marjane Satrapi cresceu perdida entre revoluções, guerras e ideologias. A menina iraniana, bisneta de um imperador do país, foi obrigada a encarar sua eterna dicotomia desde cedo: os pais sempre a ensinaram valores liberais e de esquerda, mas bastava olhar para fora de casa para se deparar com o extremismo religioso. Vivenciou o regime do Xá, sua queda via revolta popular e gradual transformação em ditadura islâmica, a guerra Irã-Iraque. Por meio dos quadrinhos, Marji conta sua história em francês mesmo, para os ocidentais, e faz finalmente com que se entenda o que é o Irã.

Quando pequena, Marji se via ligada a religião de um jeito estranho: queria ser profeta. Apesar de sua criação liberal, o regime a influenciava. Mas certas coisas ela não podia deixar de notar, como a sensação de incômodo quando andava no Cadillac chique da família, ou sua aflição de ver que a empregada da casa tem de mentir que é sua irmã para namorar o vizinho. Mas a menina cresce e começa a entender melhor as coisas. Sua pretensões religiosas desaparecem. Daí pra frente a situação começa a ficar ainda mais delicada no Irã. Seu tio Anuch, revolucionário e motivo de orgulho para ela, é executado pela ditadura. A guerra esquenta. A cultura do mártir se desenvolve. Os pais Satrapi não veem outra escolha a não ser mandar a filha para fora. Na Europa, Marji se descobre livre. Mas lá é uma estrangeira, uma oriental. Já no Irã, é considerada ocidental demais.

Marjane se utiliza de um traço infantil em preto e branco. Uma coisa meio xilogravura. Poderia ter sido mais realista, mas não ia conseguir chocar tanto. Os diálogos são preenchidos de graça com um recurso semelhante. Se por um lado existe a guerra e o terror, Persépolis também consegue divertir, fazendo piada das pequenas coisas.


Em 2007, a autobiografia virou um longa-metragem animado, do qual eu gostei bastante. É visualmente bem fiel ao livro, até porque é dirigido pela própria Marjane. Explora alguns recursos a mais, como a utilização de cores em algumas partes, o que é bem útil ao propósito do longa. Mas as melhores partes ficaram no livro mesmo.

Madame Bovary, de Gustave Flaubert

 Flaubert sonhava em escrever um livro sobre nada – no qual só o estilo importa, e não o assunto. Em parte ele consegue: Madame Bovary, livro que deu o pontapé inicial no realismo, é objetivo, imparcial, enfim, limpo. A temática, inclusive, foi retirada de notícias de jornais sobre duas mulheres diferentes, como quem escolhe algo ao acaso para falar sobre. Mas ao mesmo tempo a história de Emma importa, sim, e cada detalhe pode denunciar o absurdo da burguesia ascendente do século XIX. Flaubert, mesmo após muitas edições e páginas cortadas fora, não consegue esconder seu desprezo pela classe burguesa, da qual faz parte. Todos os personagens refletem isso, eles são e ao mesmo tempo não são o próprio Flaubert, as características que o autor mais ridiculariza e também aquelas com as quais ele se identifica estão reunidas em cada um deles (mais obviamente em Emma e Homais – mais sobre isso depois).

Emma Rouault é uma aldeã que leu romances sentimentais demais. Fascinada com ideais inatingíveis – de amores, de roupas, de vida -, ela nunca consegue encontrar sua tão esperada felicidade. Se casa com Charles Bovary, homem sem muita sensibilidade mas que a ama. Emma passa os dias olhando pela janela, passiva, esperando que alguma guinada aconteça na sua vida. Odeia Charles. Odeia sua vida provinciana monótona. Vai buscar no adultério o que não consegue alcançar no casamento – sem sucesso.

Madame Bovary é um livro muito bem pensado. Impressiona a precisão de cada vírgula, nada está na narrativa sem motivo de ser. Por isso, não me satisfaço em resenhar. Queria comentar detalhes (maravilhosos, essenciais) e também a estrutura do livro em geral, com mais liberdade pra comentar o enredo. Sim, isso inclui o final do livro. Ou seja, quem já leu vem comigo e clica aí no “continue lendo”.

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O Sr. Morris Lessmore e os apocalípticos

Aí que esse curta de animação, The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore, tem sido bastante comentado. Até ganhou Oscar e não sei mais o quê. Escrito e codirigido pelo ex-animador da Pixar William Joyce, não foge em nada do jeito Pixar de animar, mas até que é bonitinho visualmente. (Por isso que eu gosto da Aardman e da Blue Sky. Gente copiando Pixar me dá sono. Mas ops, fugi do assunto).

Basicamente é (mais uma) história sobre como precisamos ler livros ou nossa vida será em preto e branco. O Sr. Lessmore está lá, lendo, quando chega um furacão que arranca as letras dos livros e deixa tudo em preto e branco. Uma alusão à era digital, internet, e-books ou o que quiser. No fim o Sr. Lessmore acaba reencontrando o prazer da literatura, mesmo no meio das adversidades do tempo moderno. Mas… adversidades?

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O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway

Não coloquei a imagem da edição da Bertrand Brasil só de birra.

Queria porque queria ler Hemingway, fui lá e comprei a edição da Bertrand Brasil, não li sinopse, não li resenha, só comprei. Chego em casa e começo a ler a contracapa e as orelhas: medo, terror, vergonha. Fico sabendo que se trata de uma história de superação, na qual o velho pescador Santiago desafia seus limites físicos e mentais, mesmo que mais ninguém acredite nele. Porque o importante é acreditar em si mesmo e tudo mais. Estão conseguindo visualizar a minha vontade de sair correndo enquanto um letreiro luminoso de “autoajuda” pisca na minha cabeça?

Mas o fato é que a edição da Bertrand apelou bonito. O Velho e o Mar é a história de um velho que, mesmo após 84 dias sem pegar um peixe, volta ao mar porque essa é a natureza dele – ele é um pescador, é isso que ele nasceu pra fazer. Santiago é um homem sozinho no mar, mas não por escolha – é a natureza, de novo. Quando ele finalmente fisga um peixe, maior que a sua canoa, ele nada pode fazer a não ser se deixar levar por ele, que nada cada vez mais para longe da costa, e esperar que o peixe morra algum dia e possa ser fisgado. O peixe, que é tão bonito, que é seu irmão, mais um solitário ambulante do mar azul do Caribe, e que nunca seria páreo para um humano a não ser por um truque tão desonrado que é jogar uma isca. É uma história sobre a impotência do indivíduo diante da natureza.

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Areia nos Dentes e as 150 páginas

Areia nos Dentes, de Antônio Xerxenesky, tem um grave problema: é curto demais. Livro muito criativo, ganha pontos pelo enredo genial. Se às vezes me incomoda a falta de profundidade de alguns personagens que poderiam ser mais explorados, o livro me satisfaz pela sua construção original e trama eletrizante. Pra ilustrar o meu ponto, uma passagem:

Sombras de cavalos e pessoas cavalgam e caminham nas casas de madeira clara. Os ouvidos de Juan escutam somente o vento e a areia. Ele nada pressente. O sol do meio-dia está eclipsado por uma nuvem cinza. Agacha-se e põe a cabeça contra o solo. Não há passos ou movimento em um raio de quilômetros. Levanta-se. Sua orelha fica cheia de areia por fora e por dentro. Uma esfera de poeira se aproxima. Abre a boca e sente pequenos grãos de areia se grudarem nas frestas de seus dentes, a sensação mais desagradável que conhece. Tenta cuspir parte da areia, mas, ao abrir a boca para isso, tudo que consegue é absorver outro punhado de grãos. Fecha a boca em desistência. Aguarda. Caminha. Olha. Espera.

Gosto bastante desse parágrafo. E com base nele o romance teria fôlego para muito mais que contar uma história legal – fôlego pra amarrar tudo isso numa narrativa chorável e com personagens mais opacos (pra usar o termo do James Wood). Só que, mais uma vez, é aquele caso do livro nacional contemporâneo que tem mais ou menos 150 páginas.

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Como funciona a ficção, de James Wood

Só alguém tão entendido de literatura conseguiria escrever um livro desses, falando de Henry James, Flaubert, estilo indireto livre e outros assim, tão leve e descontraído. Aí James Wood ganha muito pontos, conseguindo o que tantos críticos famosos falharam em conseguir. Desculpem o momento frase clichê, mas já dizia Eistein, se a pessoa não sabe explicar algo de maneira simples, ela não o entende suficientemente bem. E tem mais: se Milan Kundera, para dar um belo exemplo, escreve lindamente sobre a arte literária, Wood é menos romancista e mais crítico, prático e objetivo.

Como funciona a ficção é divido em capítulos que tratam da narrativa, dos detalhes, dos personagens, da linguagem, do diálogo, do realismo, além de dois capítulos dedicados a Flaubert (um sobre a narrativa moderna, que Wood considera derivada de Flaubert, e outro sobre o surgimento do flâneur, no qual o personagem vai andando pelas ruas e observando). Em cada capítulo, o crítico vai dando exemplos e destrinchando alguns trechos, partindo do particular para chegar a uma reflexão mais geral de tal ocorrência na literatura.

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Daytripper, de Fábio Moon e Gabriel Bá

Daytripper é uma história estelar construída do melhor jeito possível. Das ilustrações – realistas, sensuais na medida, traço firme e grosso – passando pelo arranjo das páginas – aquela disposição mais moderna dos quadrinhos, algumas cenas épicas bem posicionadas para maior dramatização – até as cores – palhetas maravilhosamente escolhidas por Dave Stewart – tudo conspira para o efeito grandioso: a celebração da vida. Vida essa que inclui muitas mortes, também devidamente celebradas.

Brás de Oliva Domingos, filho de um grande escritor brasileiro, trabalha escrevendo obituários para um jornal, sonhando com sua obra-prima. Sua vida é como um livro a ser escrito, cheio de possibilidades que vão se expondo conforme segue a narrativa. Narrativa não linear, como pede o fluxo de consciência. Cada capítulo é um novo começo de vida (o dia do seu primeiro beijo, o do nascimento de seu filho, ou o que se encontra como escritor) mas também uma morte, tratada como parte crucial do romance da vida. Nenhum livro é completo sem seu final.

 

O grande desafio da ilustração são as emoções. Grande coisa um desenho bonitinho e proporcional. Mas a profundidade dos olhos mais maduros de Brás não mente. Vê-se a alma por trás de cada traço que faz uma ruga. As ilustrações de abertura de capítulo te fazem querer chegar logo ao próximo só para admirar.

Vencedor do prêmio Eisner e mais vendido da lista do The New York Times ao mesmo tempo, Daytripper alcançou o tão difícil equilíbrio entre sucesso de crítica e sucesso de vendas. Já é um clássico das HQs – e os gêmeos ainda prometem mais.

Resoluções e outros clichês de ano novo

Réveillion vem do francês réveiller, que significa acordar, e seja lá quem inventou essa metáfora, ela é bem inspiradora-clichê-brega. Acordai, portanto, leitores. Renascei. Saindo do mimimi: eis minha lista de resoluções literárias para este ano. Achei que seria interessante estabelecer metas, até mesmo para evitar permanecer na minha zona de conforto, e os breves comentários preconceituosos sobre os livros listados vão ser interessantes depois da leitura e eventual resenhação. Expectativas podem não ser construtivas, mas com um mar infinito de publicações por aí, somos obrigados a julgar para poder fazer escolhas.

Areia nos Dentes – Antônio Xerxenesky

Zumbis e faroeste. Precisa explicar por que desperta curiosidade? Como se não bastasse a mistura inusitada, Xerxenesky já me cativou com A Página Assombrada por Fantasmas, seu livro de contos. Promete ser um livro de passo rápido e de estrutura ousada. Veremos.

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O Velho e o Mar – Ernest Hemingway

Esse vai ser a minha introdução em Hemingway. Já está até comprado, e é uma novela bem curtinha, então não deve tardar para eu formar minha opinião. O autor me atrai pelo tão falado “culto ao simples”. Apesar de nunca ter lido nada dos autores estadunidenses da década de 30, penso que esse minimalismo literário possivelmente combina com o tipo de leitora que eu sou. Portanto, pelos mesmos motivos, tenho nutrido uma certa curiosidade por John Steinback.

Antologia Poética – Carlos Drummond de Andrade

Ano passado eu até que tentei: li um pouco de Neruda, um pouco de Pessoa. Mas poesia nunca foi o meu negócio. Pra sair da tão temida zona de conforto, achei que uma pitada de Drummond seria perfeito para me fazer adentrar nesse mundo de versos. Inteligente, mas não rebuscado. Fácil, mas genial. Leve e divertido.

 

Antes de nascer o mundo – Mia Couto

Nunca li Mia Couto e pelo que tenho lido de críticas por aí, essa é uma carência que precisa ser suprida com urgência. A  escolha desse romance é, na verdade, um tanto quanto aleatória, fui por algumas indicações de amigos. Não tenho noção do que esperar em termos de enredo, mas em estrutura, imagino uma narrativa bonita, feita de frases bem escolhidas, e ainda assim mantendo sua simplicidade. Um tanto de poesia na prosa. Mas daí talvez já seja invencionice minha.

Daytripper – Gabriel Bá e Fábio Moon

Pelo que li de resenhas, o enredo promete uma construção bem original. Além disso, a arte da dupla me agrada muito, e em se tratando de HQs isso é uns 70% pra mim. Por exemplo, Sandman parece ter um enredo interessante e é incrivelmente popular, já cheguei a quase começar a ler – mas não consigo, porque a arte não me agrada. Agora eu só preciso superar o desafio e conseguir encontrar Daytripper para comprar. Isso é sempre um problema pra mim, Kafka de Crumb sabe muito bem (que, aliás, só não coloquei aqui para não ficar repetitiva).

Só cinco porque eu sou nova com isso de metas e se eu me estender é bem capaz de não cumprir. Então só o que realmente está me dando coceira de tanta vontade de ler. Mas aceito sugestões de coração aberto. (e feliz 2012!)

O melhor de 2011

Impossível terminar o ano sem um retrospectiva literária. 2011 foi muito produtivo pra mim: aumentei consideravelmente a biblioteca, descobri alguns novos queridinhos, escrevi algumas coisas que me deixaram feliz. Eu até ia fazer uma retrospectiva do que aconteceu no ano, do que mais vendeu, do que mais deu o que falar. Mas como eu não sei ser imparcial e quem manda aqui sou eu, deixo vocês com uma lista bem pessoal do que aconteceu pra mim no meu ano, na minha opinião, he.

NOVO QUERIDINHO: O processo – Kafka

Kafka é um problema pra mim: não falo alemão. Aí fica aquela coisa de “será que a tradução vale a pena?”. Acabei gostando bastante da tradução do Modesto Carone que encontrei, a escrita não ficou quadrada, pelo contrário (e a edição da Cia. das Letras é boa, também). Problema resolvido, gostei bastante dos labirintos da trama e me apaixonei pelo livro, tanto pelo enredo como pelo estilo.

 

DECEPÇAO: José de Alencar em geral

Escrevi aqui no blog sobre Lucíola, mas vale para tudo sobre José de Alencar. Li depois de ouvir muitas recomendações de amigos, mas não rolou. Não gosto, e pronto. E pra aumentar minha decepção, o meu post sobre Lucíola é, por algumas visualizações a mais do que um post sobre Clarice, o mais visitado do blog. E isso só porque é livro de vestibular, tsc tsc.

 

QUERO LER E NAO ACHEI: Kafka de Crumb

Passei boa parte do ano procurando essa biografia do Kafka em HQ, com ilustrações de Robert Crumb. Minha ambição por ele tem a ver com o fato de o Crumb ser simplesmente ótimo combinado com a minha crescente curiosidade pelo Kafka. Continuarei minha busca em 2012, e fica aqui o meu apelo para as livrarias: comprem mais dessa belezinha, grata desde já.

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MEU POST PREFERIDO: A metaliteratura de Antônio Xerxenesky

Eu gostei de escrever esse post porque nele estão as minhas primeiras impressões de um escritor que me deixou bastante curiosa. Areia nos Dentes está na listinha já.

 

 

 

MELHOR INVESTIMENTO: Box José Saramago da Cia. das Letras

Essa coisa linda vem com 5 livros: A Caverna, Ensaio Sobre a Lucidez, História do Cerco de Lisboa, A Jangada de Pedra e A Viagem do Elefante. E você economiza no mínimo uns cem reais, pelo que eu vi por aí.

 

 

MELHOR REVISTA LITERARIA: Macondo

Pra ser justa, eu gosto e leio outras por aí também. Em 2011 várias publicações legais surgiram. Mas a Macondo tem o meu coração (ounnn). Adoro a seleção deles.

 

 

 

E é isso. Boas festas para todos os leitores lindos e bora curtir esse clima de final de ano, que aliás é a desculpa oficial para a lerdeza do blog.  Beijos e até ano que vem.