Aula de metalinguagem com Clarice Lispector

Fala-se em metalinguagem e logo se pensa em Machado de Assis. O rei, realmente e dignamente o rei. Já nos soa familiar esse jeitinho machadiano, que conversa, explica e ironiza. Também citaria aqui Vladimir Nabokov, que faz com a sua Lolita algo parecido com Capitu, o narrador/pseudoescritor vai explicando porque ele não é culpado, argumentando que na verdade Lolita é uma safada, de um jeito bem Dom Casmurro. Bentinho e Humbert Humbert vão impondo seu ponto de vista e se descuidar, você leitor acredita e esquece que existe uma parcialidade aí. E a metalinguagem faz um papel importante, dando as “provas”, explicando o que vai sendo escrito e por que está sendo escrito desse jeito.

Tudo isso é lindo e genial, mas eu estou aqui é pra falar de Clarice mesmo (acho que esse assunto Capitu x Lolita ainda rende muito pano pra manga, mas enfim, deixemos para outros posts). Citei Machado e Nabokov só pra dizer que o que eu quero discutir é completamente diferente desses dois. Dona Clarice, como sempre em sua espontaneidade, fez diferente.

Irei falar do conto A quinta história, meu favorito na obra Felicidade Clandestina e também presente em A legião estrangeira. Pode ser lido aqui.

Muitos inclusive usam esse conto como base para exercitar sua escrita, fazendo um exercício semelhante com o que Clarice faz. Isso de fazer exercícios literários aparece também em Felicidade Clandestina com O ovo e a galinha (nem de longe tão bom).

E a tal metalinguagem da Clarice é tão leve, solta. Ela flui naturalmente, não é nada forçada. E a genialidade com que ela vai construindo o conto, acrescentando sempre mais, virando a perspectiva, escrevendo as tais várias histórias. E quando ela faz todo aquele exagero romântico, só pra terminar cortando o clima dizendo “esta casa foi dedetizada”? Dá até arrepios.

E o último parágrafo, a quinta história, pra fechar com humor. Estrutura mais que linda, de chorar, pra se inspirar mesmo.

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