Areia nos Dentes e as 150 páginas

Areia nos Dentes, de Antônio Xerxenesky, tem um grave problema: é curto demais. Livro muito criativo, ganha pontos pelo enredo genial. Se às vezes me incomoda a falta de profundidade de alguns personagens que poderiam ser mais explorados, o livro me satisfaz pela sua construção original e trama eletrizante. Pra ilustrar o meu ponto, uma passagem:

Sombras de cavalos e pessoas cavalgam e caminham nas casas de madeira clara. Os ouvidos de Juan escutam somente o vento e a areia. Ele nada pressente. O sol do meio-dia está eclipsado por uma nuvem cinza. Agacha-se e põe a cabeça contra o solo. Não há passos ou movimento em um raio de quilômetros. Levanta-se. Sua orelha fica cheia de areia por fora e por dentro. Uma esfera de poeira se aproxima. Abre a boca e sente pequenos grãos de areia se grudarem nas frestas de seus dentes, a sensação mais desagradável que conhece. Tenta cuspir parte da areia, mas, ao abrir a boca para isso, tudo que consegue é absorver outro punhado de grãos. Fecha a boca em desistência. Aguarda. Caminha. Olha. Espera.

Gosto bastante desse parágrafo. E com base nele o romance teria fôlego para muito mais que contar uma história legal – fôlego pra amarrar tudo isso numa narrativa chorável e com personagens mais opacos (pra usar o termo do James Wood). Só que, mais uma vez, é aquele caso do livro nacional contemporâneo que tem mais ou menos 150 páginas.

Continuar lendo

Anúncios

Resoluções e outros clichês de ano novo

Réveillion vem do francês réveiller, que significa acordar, e seja lá quem inventou essa metáfora, ela é bem inspiradora-clichê-brega. Acordai, portanto, leitores. Renascei. Saindo do mimimi: eis minha lista de resoluções literárias para este ano. Achei que seria interessante estabelecer metas, até mesmo para evitar permanecer na minha zona de conforto, e os breves comentários preconceituosos sobre os livros listados vão ser interessantes depois da leitura e eventual resenhação. Expectativas podem não ser construtivas, mas com um mar infinito de publicações por aí, somos obrigados a julgar para poder fazer escolhas.

Areia nos Dentes – Antônio Xerxenesky

Zumbis e faroeste. Precisa explicar por que desperta curiosidade? Como se não bastasse a mistura inusitada, Xerxenesky já me cativou com A Página Assombrada por Fantasmas, seu livro de contos. Promete ser um livro de passo rápido e de estrutura ousada. Veremos.

.

.
O Velho e o Mar – Ernest Hemingway

Esse vai ser a minha introdução em Hemingway. Já está até comprado, e é uma novela bem curtinha, então não deve tardar para eu formar minha opinião. O autor me atrai pelo tão falado “culto ao simples”. Apesar de nunca ter lido nada dos autores estadunidenses da década de 30, penso que esse minimalismo literário possivelmente combina com o tipo de leitora que eu sou. Portanto, pelos mesmos motivos, tenho nutrido uma certa curiosidade por John Steinback.

Antologia Poética – Carlos Drummond de Andrade

Ano passado eu até que tentei: li um pouco de Neruda, um pouco de Pessoa. Mas poesia nunca foi o meu negócio. Pra sair da tão temida zona de conforto, achei que uma pitada de Drummond seria perfeito para me fazer adentrar nesse mundo de versos. Inteligente, mas não rebuscado. Fácil, mas genial. Leve e divertido.

 

Antes de nascer o mundo – Mia Couto

Nunca li Mia Couto e pelo que tenho lido de críticas por aí, essa é uma carência que precisa ser suprida com urgência. A  escolha desse romance é, na verdade, um tanto quanto aleatória, fui por algumas indicações de amigos. Não tenho noção do que esperar em termos de enredo, mas em estrutura, imagino uma narrativa bonita, feita de frases bem escolhidas, e ainda assim mantendo sua simplicidade. Um tanto de poesia na prosa. Mas daí talvez já seja invencionice minha.

Daytripper – Gabriel Bá e Fábio Moon

Pelo que li de resenhas, o enredo promete uma construção bem original. Além disso, a arte da dupla me agrada muito, e em se tratando de HQs isso é uns 70% pra mim. Por exemplo, Sandman parece ter um enredo interessante e é incrivelmente popular, já cheguei a quase começar a ler – mas não consigo, porque a arte não me agrada. Agora eu só preciso superar o desafio e conseguir encontrar Daytripper para comprar. Isso é sempre um problema pra mim, Kafka de Crumb sabe muito bem (que, aliás, só não coloquei aqui para não ficar repetitiva).

Só cinco porque eu sou nova com isso de metas e se eu me estender é bem capaz de não cumprir. Então só o que realmente está me dando coceira de tanta vontade de ler. Mas aceito sugestões de coração aberto. (e feliz 2012!)

O melhor de 2011

Impossível terminar o ano sem um retrospectiva literária. 2011 foi muito produtivo pra mim: aumentei consideravelmente a biblioteca, descobri alguns novos queridinhos, escrevi algumas coisas que me deixaram feliz. Eu até ia fazer uma retrospectiva do que aconteceu no ano, do que mais vendeu, do que mais deu o que falar. Mas como eu não sei ser imparcial e quem manda aqui sou eu, deixo vocês com uma lista bem pessoal do que aconteceu pra mim no meu ano, na minha opinião, he.

NOVO QUERIDINHO: O processo – Kafka

Kafka é um problema pra mim: não falo alemão. Aí fica aquela coisa de “será que a tradução vale a pena?”. Acabei gostando bastante da tradução do Modesto Carone que encontrei, a escrita não ficou quadrada, pelo contrário (e a edição da Cia. das Letras é boa, também). Problema resolvido, gostei bastante dos labirintos da trama e me apaixonei pelo livro, tanto pelo enredo como pelo estilo.

 

DECEPÇAO: José de Alencar em geral

Escrevi aqui no blog sobre Lucíola, mas vale para tudo sobre José de Alencar. Li depois de ouvir muitas recomendações de amigos, mas não rolou. Não gosto, e pronto. E pra aumentar minha decepção, o meu post sobre Lucíola é, por algumas visualizações a mais do que um post sobre Clarice, o mais visitado do blog. E isso só porque é livro de vestibular, tsc tsc.

 

QUERO LER E NAO ACHEI: Kafka de Crumb

Passei boa parte do ano procurando essa biografia do Kafka em HQ, com ilustrações de Robert Crumb. Minha ambição por ele tem a ver com o fato de o Crumb ser simplesmente ótimo combinado com a minha crescente curiosidade pelo Kafka. Continuarei minha busca em 2012, e fica aqui o meu apelo para as livrarias: comprem mais dessa belezinha, grata desde já.

.

MEU POST PREFERIDO: A metaliteratura de Antônio Xerxenesky

Eu gostei de escrever esse post porque nele estão as minhas primeiras impressões de um escritor que me deixou bastante curiosa. Areia nos Dentes está na listinha já.

 

 

 

MELHOR INVESTIMENTO: Box José Saramago da Cia. das Letras

Essa coisa linda vem com 5 livros: A Caverna, Ensaio Sobre a Lucidez, História do Cerco de Lisboa, A Jangada de Pedra e A Viagem do Elefante. E você economiza no mínimo uns cem reais, pelo que eu vi por aí.

 

 

MELHOR REVISTA LITERARIA: Macondo

Pra ser justa, eu gosto e leio outras por aí também. Em 2011 várias publicações legais surgiram. Mas a Macondo tem o meu coração (ounnn). Adoro a seleção deles.

 

 

 

E é isso. Boas festas para todos os leitores lindos e bora curtir esse clima de final de ano, que aliás é a desculpa oficial para a lerdeza do blog.  Beijos e até ano que vem.

A metaliteratura de Antônio Xerxenesky

Escritores, leitores, livros e gente que gosta de livros. Na coletânea de contos A Página Assombrada por Fantasmas, Xerxenesky arranca um suspiro de deleite nos leitores ávidos, aqueles que não gostam só de ler, que gostam de falar sobre a literatura, como se ela transcendesse as páginas.

Seja para acalmar seu leitor com seu cheiro bom de papel ou para encher a cabeça de paranoias, em teorias não comprovadas de uma ligação da ficção com o real, os livros estão lá, sempre presentes durante os nove contos. Mas, uma vez que esse tema comum amarra o livro, o autor está livre para variar em tudo o mais. Dos enredos mais criativos e mirabolantes ao jeito de narrar, Xerxenesky vai brincando de experimentar e é aí que A Página ganha seu brilho.

No conto que dá nome ao livro, a narradora descreve uma Buenos Aires assombrada por Jorge Luis Borges. Nesse conto mais especificamente, mas em todos os outros também, vem a tese de que o que se sabe de um texto antes de ler, a situação e ambiente que envolve o leitor e tudo que já foi lido antes por ele é tão, se não mais, importante do que o texto que se tem em mãos no momento. O leitor é o coautor do livro.