Retalhos, de Craig Thompson

 Vencendor de três prêmios Harvey (melhor artista, melhor graphic novel original e melhor cartunista) e dois prêmios Eisner (melhor graphic novel e melhor escritor/artista), Retalhos é simplesmente arrebatador. Craig Thompson conta a sua própria história, desde criança até o final da adolescência, sua relação com os pais, o irmão, a religião, seu primeiro amor. Tudo isso de um jeito dolorosamente sincero: as formas, os traços certeiros de nanquim e até a neve que nunca acaba na pequena cidade no meio do nada transpiram a delicadeza da história a ser contada.

A puberdade de Thompson é marcada pelo temor a deus, transmitido continuamente por seus pais, e que inevitavelmente entra em conflito com seus desejos. Do acampamento da igreja com seus cultos até as aulas de ensino religioso e seus professores intimidadores, Craig se vê perdido entre dúvidas e inconsistências, incapaz de exercitar a pureza que exigem dele.

Sufocado em expectativas, acaba conhecendo Raina, uma garota leve e fluída, vivaz e impulsiva. A relação dos dois mudará as visões de Craig sobre o céu, deus e o amor.

O Craig é muito mais quadrado que a Raina – em todos os sentidos. E nas míseras duas semanas que ele passa com ela, as experiências compartilhadas são suficientes para balançar o seu mundo. Ele descobre que existe toda uma gama de outras opções entre céu e inferno. Ele descobre a sensação de compartilhar um mundo debaixo das cobertas nas noites de nevasca.

E em relação a dormir juntos: páginas e páginas são dedicadas a explicar essa sensação estranha e maravilhosa. Em mil e uma posições diferentes, pode se dizer que Craig Thompson é um PhD em desenhos de “conchinha”.

Retalhos é a arte de emocionar com uma história simples e sincera. Em suas páginas, dá pra sentir a vulnerabilidade do autor, todo entregue e aberto para ser lido.

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Persépolis, de Marjane Satrapi

Marjane Satrapi cresceu perdida entre revoluções, guerras e ideologias. A menina iraniana, bisneta de um imperador do país, foi obrigada a encarar sua eterna dicotomia desde cedo: os pais sempre a ensinaram valores liberais e de esquerda, mas bastava olhar para fora de casa para se deparar com o extremismo religioso. Vivenciou o regime do Xá, sua queda via revolta popular e gradual transformação em ditadura islâmica, a guerra Irã-Iraque. Por meio dos quadrinhos, Marji conta sua história em francês mesmo, para os ocidentais, e faz finalmente com que se entenda o que é o Irã.

Quando pequena, Marji se via ligada a religião de um jeito estranho: queria ser profeta. Apesar de sua criação liberal, o regime a influenciava. Mas certas coisas ela não podia deixar de notar, como a sensação de incômodo quando andava no Cadillac chique da família, ou sua aflição de ver que a empregada da casa tem de mentir que é sua irmã para namorar o vizinho. Mas a menina cresce e começa a entender melhor as coisas. Sua pretensões religiosas desaparecem. Daí pra frente a situação começa a ficar ainda mais delicada no Irã. Seu tio Anuch, revolucionário e motivo de orgulho para ela, é executado pela ditadura. A guerra esquenta. A cultura do mártir se desenvolve. Os pais Satrapi não veem outra escolha a não ser mandar a filha para fora. Na Europa, Marji se descobre livre. Mas lá é uma estrangeira, uma oriental. Já no Irã, é considerada ocidental demais.

Marjane se utiliza de um traço infantil em preto e branco. Uma coisa meio xilogravura. Poderia ter sido mais realista, mas não ia conseguir chocar tanto. Os diálogos são preenchidos de graça com um recurso semelhante. Se por um lado existe a guerra e o terror, Persépolis também consegue divertir, fazendo piada das pequenas coisas.


Em 2007, a autobiografia virou um longa-metragem animado, do qual eu gostei bastante. É visualmente bem fiel ao livro, até porque é dirigido pela própria Marjane. Explora alguns recursos a mais, como a utilização de cores em algumas partes, o que é bem útil ao propósito do longa. Mas as melhores partes ficaram no livro mesmo.