Capitães da Areia, de Jorge Amado

 O jeitinho que o Jorge Amado conta histórias — independente de estrutura, sintaxe, conteúdo intelectual — é algo que Dostoiévski nenhum jamais soube fazer. Devo perdão à biblioteca por ter deixado algumas marquinhas úmidas no livro, inclusive.

O romance é dividido em três partes, e os meus comentários sobre ele idem. Na primeira delas, “Sob a lua, num velho trapiche abandonado”, eu não me importaria nem um pouco se Jorge só continuasse descrevendo os personagens, para sempre. Cada um dos meninos-homens abandonados, integrantes dos Capitães da Areia, tem sua história, todas lindas, impossível não criar afeição. O leitor é apresentado a dura realidade da cidade baixa lá pela década de 30, na época do início da ditadura getulista. O ambiente em que vivem é o culpado pelos roubos dos meninos, que muito cedo conhecem a maldade e a malícia do mundo. Ainda assim, eles têm uma alma livre.

Na segunda parte, “Noite da grande paz, da grande paz dos teus olhos”, chega Dora, a pequena Maria Bonita de Salvador. Também chega uma angústia suprema, da repressão, do amor e da morte.

E em “Canção da Bahia, canção da liberdade” todo o sentimento de revolução social que vem se argumentando com o decorrer do livro, querendo crescer, finalmente explode. Tanto como cangaceiros, grevistas, pintores (que retratam a situação de miséria dos jovens), os Capitães da Areia amadurecem e pela politização saem da vida de crime pelo crime para pecar só em nome da pátria e da família dos pobres. Não é surpresa, portanto, que o livro foi considerado propaganda comunista e censurado em época de ditadura.

Imagem do filme de Cecília Amado (que estou bem ansiosa para ver, por sinal)