Universo Desconstruído: contos de ficção científica feminista

ilustração por Tais FantoniA ficção científica é um gênero utópico ou distópico por definição. Ela se propõe a observar o presente, suas falhas e esperanças, e alongar a linha, imaginando um futuro. Ou seja, desde Asimov até Bradbury, a FC sempre foi terreno fértil para a crítica social, ou pelo menos, para algumas críticas sociais.

A mulher, ainda mais a mulher trans*, negra, homossexual, é invisibilizada. Renegada a estereótipos superficiais ou personagens secundários, incapaz e dependente. É uma situação que precisa de esforço ativo para ser mudada; sentar e esperar não ajuda. Pensando nisso, Aline Valek e Sybylla organizaram uma coletânea de contos que colocam a mulher no centro.

Os contos por vezes imaginam como seria o mundo se, finalmente, conseguíssemos nos desvencilhar de nossos preconceitos. Assim ficamos conhecendo protagonistas incríveis que talvez não teriam desabrochado nos dias de hoje, como é o caso da forte e justiceira Electra (Codinome Electra, Lady Sybylla).

Outras vezes conhecemos o outro lado da moeda, a opressão dos dias de hoje correndo solta e impunível. Nesse cenário, vemos mulheres sofridas, mas ainda fortes o suficiente para lutar por suas irmãs. A astropaleontóloga de Requiém para a humanidade (Thabata Borine), que tem seu caminho obstruído pela constante incredulidade e violência. A gênia da robótica Diana, de Eu, incubadora (Aline Valek), que, apesar do marido invejoso, inventa uma saída criativa para o seu problema. A esperta e perigosa Luísa e a infeliz Irina, de Cidadela (Lyra Libero). A neurocientista mais ou menos morta Isabel, de Projeto Áquila (Gabriela Ventura).

As personagens cativam por sua profundidade. Nenhuma é igual a outra, assim como na vida real, um fato que a ficção científica falhou tantas vezes em retratar. Ler um livro assim é se sentir compreendida.

Baixe o ebook gratuito no site: universodesconstruido.com

Anúncios

Mais do bom e velho Machado

Perdoem a overdose machadiana, mas eu tenho uma meta: ler a obra completa de Machado de Assis. E é muito conto. Meus preferidos eu morro de vontade de falar sobre, inclusive já falei de alguns, e ainda tem muita coisa boa e válida que eu vou achando conforme vou lendo. Para não ficar tão longo e ao mesmo tempo poder compartilhar tudo que eu quero compartilhar, vou fazer um apanhadão de alguns contos que tem me cativado ultimamente.

As Academias de Sião: a princípio chama a atenção por ser diferente do que a gente está acostumado em termos de Machado, mas na verdade não foge muito, não. Se passa na China e utiliza algumas alegorias hindus (nossa, isso é Machado?), e fala sobre a arrogância, prepotência e ignorância humana (ah, agora sim). É uma sátira com as academias, tanto científicas quanto literárias, comuns no final do século XIX (oi, ABL). Os intelectuais de Sião indagam-se, observando seu rei de personalidade emotiva e traços delicados, porque alguns homens tem alma de mulher e algumas mulheres tem alma de homem. Algumas academias creem que a alma é neutra e nada tem a ver com o exterior. Já uma outra academia acredita que existem almas femininas e masculinas, e ocasionalmente elas vão parar nos corpos errados. Essa última academia, certa de seu veredicto, aniquila barbaramente os intelectuais que acreditam na alma neutra. Mas além da prepotência necessária para agir com tamanha violência, os membros da academia vencedora também são prepotentes com seus colegas acadêmicos. Juntos, julgam-se a luz do mundo. Mas separados, são cobras, falando mal um dos outros.

Meio que paralelamente também se discute a questão do homem feminino/mulher masculina. O rei feminino e Kinnara, que é uma mulher masculina, trocam de corpos. Mas Machado não quer provar tese nenhuma – ele apenas joga o enredo para que o leitor pense o que quiser.

A Cartomante: Clássico. Além do bem machadiano (traição com a esposa do melhor amigo etc.), é bem interessante a temática do supersticioso. Já começa citando Hamlet (“há mais coisas entre o céu e a terra, horácio, do que sonha a nossa vã filosofia”), enquanto Camilo debocha de Rita (sua amante) por ter consultado uma cartomante. Mas quando vem a necessidade, Camilo, antes tão fechado, se sente muito tentado a visitar a tal vidente, e acaba indo. É incrível como o ser humano ama acreditar no que é reconfortante quando se sente indefeso (superstições, religiões…). Ótimo final, bem frio.

Noite de Almirante: Adoro. Triângulo amoroso de novo, mas dessa vez não é amargo. É doce e sutil. O marinheiro Deolindo e Genoveva juram que, durante os 10 meses que esse ficará longe, irão esperar um pelo outro. No dia da chegada, Deolindo vem ansioso pela sua merecida “noite de almirante”, que não acontece. O conto vai sempre trazendo a expectativa de tragédia, mas esta não vem, fica só na melancolia do jeito ingênuo, inocente e cativante da Genoveva.

Baixar em domínio público: As Academias de Sião, A Cartomante e Noite de Almirante.