Daytripper, de Fábio Moon e Gabriel Bá

Daytripper é uma história estelar construída do melhor jeito possível. Das ilustrações – realistas, sensuais na medida, traço firme e grosso – passando pelo arranjo das páginas – aquela disposição mais moderna dos quadrinhos, algumas cenas épicas bem posicionadas para maior dramatização – até as cores – palhetas maravilhosamente escolhidas por Dave Stewart – tudo conspira para o efeito grandioso: a celebração da vida. Vida essa que inclui muitas mortes, também devidamente celebradas.

Brás de Oliva Domingos, filho de um grande escritor brasileiro, trabalha escrevendo obituários para um jornal, sonhando com sua obra-prima. Sua vida é como um livro a ser escrito, cheio de possibilidades que vão se expondo conforme segue a narrativa. Narrativa não linear, como pede o fluxo de consciência. Cada capítulo é um novo começo de vida (o dia do seu primeiro beijo, o do nascimento de seu filho, ou o que se encontra como escritor) mas também uma morte, tratada como parte crucial do romance da vida. Nenhum livro é completo sem seu final.

 

O grande desafio da ilustração são as emoções. Grande coisa um desenho bonitinho e proporcional. Mas a profundidade dos olhos mais maduros de Brás não mente. Vê-se a alma por trás de cada traço que faz uma ruga. As ilustrações de abertura de capítulo te fazem querer chegar logo ao próximo só para admirar.

Vencedor do prêmio Eisner e mais vendido da lista do The New York Times ao mesmo tempo, Daytripper alcançou o tão difícil equilíbrio entre sucesso de crítica e sucesso de vendas. Já é um clássico das HQs – e os gêmeos ainda prometem mais.

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Watchmen

Escrito por Alan Moore, desenhado por Dave Gibbons e colorido por John Higgins, Watchmen não conta uma grande história, mas a conta de um jeito grande. Em uma realidade alternativa na qual super-heróis surgiram na década de 40 e mudaram o rumo dos Estados Unidos, agora na década de 80, em plena Guerra Fria. Moore desconstrói a figura do herói, colocando-o em um meio extremamente realista, coisa muito original em quadrinhos da DC na época (porém o estilo foi amplamente copiado na décadas seguintes).

A estética é excepcional. Gibbons tem um traço forte e diferenciado, além de uma habilidade notável com expressões. Só deixa a desejar no desenho das mulheres (Thierry Mugler demais), mas talvez seja só questão do meu estilo colidindo com o dele. Higgins fez uma ótima escolha da palheta, destaca as cores secundárias, principalmente o roxo (não óbvio). Manipulando as cores, ele vai fazendo um degradê das cenas sombrias até chegar no clímax da história. A composição dos quadrinhos é clássica, em geral nove por página, mas um destaque especial ao capítulo “Terrível Simetria”, em que o layout da primeira página é simétrico ao da última, o da segunda ao da penúltima e assim por diante, gerando um enquadramento épico nas páginas centrais. Muito bem construído.

Página central do capítulo “Terrível Simetria”

Para mim, acostumada com as ilustrações da DC mas não muito familiar com as graphic novels em si (gosto muito de vários ilustradores; nem reconheço o nome dos roteiristas) Watchmen foi uma ótima iniciação.