Universo Desconstruído: contos de ficção científica feminista

ilustração por Tais FantoniA ficção científica é um gênero utópico ou distópico por definição. Ela se propõe a observar o presente, suas falhas e esperanças, e alongar a linha, imaginando um futuro. Ou seja, desde Asimov até Bradbury, a FC sempre foi terreno fértil para a crítica social, ou pelo menos, para algumas críticas sociais.

A mulher, ainda mais a mulher trans*, negra, homossexual, é invisibilizada. Renegada a estereótipos superficiais ou personagens secundários, incapaz e dependente. É uma situação que precisa de esforço ativo para ser mudada; sentar e esperar não ajuda. Pensando nisso, Aline Valek e Sybylla organizaram uma coletânea de contos que colocam a mulher no centro.

Os contos por vezes imaginam como seria o mundo se, finalmente, conseguíssemos nos desvencilhar de nossos preconceitos. Assim ficamos conhecendo protagonistas incríveis que talvez não teriam desabrochado nos dias de hoje, como é o caso da forte e justiceira Electra (Codinome Electra, Lady Sybylla).

Outras vezes conhecemos o outro lado da moeda, a opressão dos dias de hoje correndo solta e impunível. Nesse cenário, vemos mulheres sofridas, mas ainda fortes o suficiente para lutar por suas irmãs. A astropaleontóloga de Requiém para a humanidade (Thabata Borine), que tem seu caminho obstruído pela constante incredulidade e violência. A gênia da robótica Diana, de Eu, incubadora (Aline Valek), que, apesar do marido invejoso, inventa uma saída criativa para o seu problema. A esperta e perigosa Luísa e a infeliz Irina, de Cidadela (Lyra Libero). A neurocientista mais ou menos morta Isabel, de Projeto Áquila (Gabriela Ventura).

As personagens cativam por sua profundidade. Nenhuma é igual a outra, assim como na vida real, um fato que a ficção científica falhou tantas vezes em retratar. Ler um livro assim é se sentir compreendida.

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A Insustentável Leveza do Ser, de Milan Kundera

Tereza e Tomas, Sabina e Franz são os dois casais que se entrelaçam e se separam, conduzindo a narrativa. Cada um deles tem uma personalidade bem específica e delimitada, e, a partir de suas reações ao mundo, Kundera discorre sobre o leve e o pesado. Acho o título incrível e fico feliz que no português a palavra insustentável não perde a sutileza do original em tcheco (nesnesitelná, segundo o google), diferente do que acontece em inglês. Em palavras de conotação contrária, é comum uma ser considerada boa e a outra ruim. Para Parmênides, o leve é positivo e o pesado é a ausência de leveza, e portanto negativo. Mas isso faz sentido de fato? Como explica o título, o ser tem uma característica própria de ser leve e, paradoxalmente, por causa disso é insustentável, pesado (ou vice-versa). Por exemplo, Sabina leva uma vida onde nunca se prende em nada ou ninguém, prezando por sua liberdade, e é exatamente esse o seu fardo. Já Franz tem seu trabalho, sua mulher, sua filha, enfim, suas responsabilidades, mas isso pesa tanto que o sufoca e faz a vida não ter sentido, ser leve demais. O autor carrega em todo o livro essas ambiguidades, e as explica de uma maneira que faz o leitor pensar “nossa, realmente é assim”.

O romance se passa na antiga Tchecoslováquia e começa em 1968, o ano da invasão russa e a Primavera de Praga. O contexto histórico é tão importante quanto os personagens em si, se é que ele não pode ser chamado de personagem. Praga também sente a insustentável leveza do ser de estar no meio de uma reforma política radical e dura. A violência é pesada, mas estar no meio do redemoinho faz tudo parecer leve, como se nada mais importasse. A leveza faz os personagens se acostumarem rápido ao novo cenário.

Parece que entre os quatro personagens problemáticos, como todo ser humano, apenas a cadela Karenin consegue extrair o melhor dessa estranha natureza do ser. Kundera explica que a cadela vê a vida de maneira circular, e não linear, como os outros. Ela não quer chegar a lugar algum, ela não tem um propósito, ela não almeja estar amanhã melhor do que estava hoje. Ao invés disso, vive e ama sua rotina, num eterno carpe diem.

A sinceridade do livro o torna melancólico, mas de um jeito bonito. Como na música de Beethoven citada por Kundera, alguns diriam que A Insustentável Leveza do Ser é um ess muss sein (tem que ser) da literatura, mas a leitura do livro pode se tornar extremamente leve, também.

Retalhos, de Craig Thompson

 Vencendor de três prêmios Harvey (melhor artista, melhor graphic novel original e melhor cartunista) e dois prêmios Eisner (melhor graphic novel e melhor escritor/artista), Retalhos é simplesmente arrebatador. Craig Thompson conta a sua própria história, desde criança até o final da adolescência, sua relação com os pais, o irmão, a religião, seu primeiro amor. Tudo isso de um jeito dolorosamente sincero: as formas, os traços certeiros de nanquim e até a neve que nunca acaba na pequena cidade no meio do nada transpiram a delicadeza da história a ser contada.

A puberdade de Thompson é marcada pelo temor a deus, transmitido continuamente por seus pais, e que inevitavelmente entra em conflito com seus desejos. Do acampamento da igreja com seus cultos até as aulas de ensino religioso e seus professores intimidadores, Craig se vê perdido entre dúvidas e inconsistências, incapaz de exercitar a pureza que exigem dele.

Sufocado em expectativas, acaba conhecendo Raina, uma garota leve e fluída, vivaz e impulsiva. A relação dos dois mudará as visões de Craig sobre o céu, deus e o amor.

O Craig é muito mais quadrado que a Raina – em todos os sentidos. E nas míseras duas semanas que ele passa com ela, as experiências compartilhadas são suficientes para balançar o seu mundo. Ele descobre que existe toda uma gama de outras opções entre céu e inferno. Ele descobre a sensação de compartilhar um mundo debaixo das cobertas nas noites de nevasca.

E em relação a dormir juntos: páginas e páginas são dedicadas a explicar essa sensação estranha e maravilhosa. Em mil e uma posições diferentes, pode se dizer que Craig Thompson é um PhD em desenhos de “conchinha”.

Retalhos é a arte de emocionar com uma história simples e sincera. Em suas páginas, dá pra sentir a vulnerabilidade do autor, todo entregue e aberto para ser lido.

Asterios Polyp, de David Mazzuchelli

Basta folhear Asterios Polyp para entender porque é um sucesso de críticas. As cores maravilhosamente selecionadas brincam de se combinar com suas análogas e complementares, compondo a paleta perfeita para cada par de páginas, que por sua vez compõem a paleta perfeita para o livro. Após essa primeira impressão, paro para observar mais atentamente os traços certeiros que desenham personagens bem elaborados. Está decidido, é esse mesmo. Passo no caixa e pago. E Asterios Polyp não precisou nem de meio minuto pra me convencer.

O Asterios do título é um arquiteto bem sucedido, mas “de papel”, termo utilizado para designar um arquiteto cujos projetos nunca são construídos. A história se divide por dois pontos de vista intercalados: o de Asterios e o de Ignazio. Ignazio é o irmão gêmeo do protagonista que não sobreviveu ao parto. Ele representa a dualidade e a simetria, tão preciosas para o irmão, que foi perdida. Através dele ficamos sabendo do passado de Asterios, um homem que segue à risca a regra da utilidade em sua vida – odeia enfeites, são desnecessários -, que enxerga o mundo em linhas retas, cheio de si. Asterios já foi casado com Hana, uma mulher delicada e fluída, a quem constantemente ofuscava e de quem inevitavelmente se divorciou. Já a história que o próprio arquiteto nos conta é uma história de mudanças. Inicialmente sozinho na vida, um incêndio destrói seu apartamento, deixando-o perdido. Levando apenas três objetos que conseguiu resgatar, foge do mundo que conhece e vai morar em uma cidade do interior, trabalhando como mecânico e morando na casa de seu patrão.

  Todos que leram Asterios Polyp tem que admitir que o fizeram por causa da arte de tirar o fôlego. Mas a história é colocada de um modo muito interessante, criando equilíbrio entre os elementos dos quadrinhos. David Mazzuchelli sabe muito bem os recursos que tem, e utiliza todas as suas possibilidades para extrair o máximo deles.




Logicomix: uma jornada épica em busca da verdade

Na Oresteia, de Ésquilo, Atena, deusa da sabedoria e da estratégia, utiliza sua lógica para resolver uma questão complicada sem recorrer à figura da autoridade, comum nos sistemas anteriores: inventa o júri popular. Desde a Grécia Antiga, o homem busca a difícil definição de raciocínio válido, e quando o conceito é tão volátil, é mesmo natural que a tarefa seja delegada apenas a deuses. Mas no século XX a ciência da Lógica cresce realmente, de maneira irônica entre guerras mundiais e crises. Bertrand Russell, Gottlob Frege, David Hilbert, Kurt Gödel, Ludwig Wittgenstein, John von Neumann, entre outros pensadores, guiam Logicomix na sua “jornada épica em busca da verdade”, como diz o subtítulo.

Bertrand Russell, ainda jovem, descobre a matemática e a eterna ambiguidade que ela traz na sua vida: por um lado a promessa de uma sociedade racional oferece conforto a um menino tão cheio de incertezas; por outro, o medo da loucura, tão contrário à Lógica mas tão comum em cientistas da área. Mais tarde, na universidade, descobre que a Matemática se encontra em crise. Os matemáticos da época apoiam-se em pilares que se apoiam em outros pilares que por sua vez se apoiam em mais alguns pilares qualquer, mas no final tudo isso está empilhado em cima do vazio, ruindo. São axiomas vazios. Russell, alucinado, passa boa parte de sua vida indo atrás dos fundamentos que estão faltando.

As ilustrações fortes, firmes e limpas de Alecos Papadatos e Annie di Donna impressionam primeiramente pela finalização impecável. A construção dos personagens, em se tratando de pessoas reais, também é ótima e divertida (exemplo: pesquisa de personagem do Bertrand Russell).

Estes quadrinhos não pretendem ser um manual de lógica para principiantes, longe disso. É uma história, como tantas outras, sobre pessoas e suas paixões – não se deixem enganar pelos personagens matemáticos. Uma história, inclusive, ficcional, mas na maior parte do tempo muito justa com a realidade. Genial. No final da Oresteia, as Fúrias dizem: “regozijai-vos, cidadãos felizes que apreciam a verdadeira sabedoria!”. Felizes eu não sei, loucos talvez, mas regozijai-vos com Logicomix.

Logicomix: uma jornada épica em busca da verdade, de Apostolos Doxiadis e Christos H. Papadimitriou, com arte de Alecos Papadatos e Annie di Donna. 347 páginas. Editora Martins Fontes.

Persépolis, de Marjane Satrapi

Marjane Satrapi cresceu perdida entre revoluções, guerras e ideologias. A menina iraniana, bisneta de um imperador do país, foi obrigada a encarar sua eterna dicotomia desde cedo: os pais sempre a ensinaram valores liberais e de esquerda, mas bastava olhar para fora de casa para se deparar com o extremismo religioso. Vivenciou o regime do Xá, sua queda via revolta popular e gradual transformação em ditadura islâmica, a guerra Irã-Iraque. Por meio dos quadrinhos, Marji conta sua história em francês mesmo, para os ocidentais, e faz finalmente com que se entenda o que é o Irã.

Quando pequena, Marji se via ligada a religião de um jeito estranho: queria ser profeta. Apesar de sua criação liberal, o regime a influenciava. Mas certas coisas ela não podia deixar de notar, como a sensação de incômodo quando andava no Cadillac chique da família, ou sua aflição de ver que a empregada da casa tem de mentir que é sua irmã para namorar o vizinho. Mas a menina cresce e começa a entender melhor as coisas. Sua pretensões religiosas desaparecem. Daí pra frente a situação começa a ficar ainda mais delicada no Irã. Seu tio Anuch, revolucionário e motivo de orgulho para ela, é executado pela ditadura. A guerra esquenta. A cultura do mártir se desenvolve. Os pais Satrapi não veem outra escolha a não ser mandar a filha para fora. Na Europa, Marji se descobre livre. Mas lá é uma estrangeira, uma oriental. Já no Irã, é considerada ocidental demais.

Marjane se utiliza de um traço infantil em preto e branco. Uma coisa meio xilogravura. Poderia ter sido mais realista, mas não ia conseguir chocar tanto. Os diálogos são preenchidos de graça com um recurso semelhante. Se por um lado existe a guerra e o terror, Persépolis também consegue divertir, fazendo piada das pequenas coisas.


Em 2007, a autobiografia virou um longa-metragem animado, do qual eu gostei bastante. É visualmente bem fiel ao livro, até porque é dirigido pela própria Marjane. Explora alguns recursos a mais, como a utilização de cores em algumas partes, o que é bem útil ao propósito do longa. Mas as melhores partes ficaram no livro mesmo.

Daytripper, de Fábio Moon e Gabriel Bá

Daytripper é uma história estelar construída do melhor jeito possível. Das ilustrações – realistas, sensuais na medida, traço firme e grosso – passando pelo arranjo das páginas – aquela disposição mais moderna dos quadrinhos, algumas cenas épicas bem posicionadas para maior dramatização – até as cores – palhetas maravilhosamente escolhidas por Dave Stewart – tudo conspira para o efeito grandioso: a celebração da vida. Vida essa que inclui muitas mortes, também devidamente celebradas.

Brás de Oliva Domingos, filho de um grande escritor brasileiro, trabalha escrevendo obituários para um jornal, sonhando com sua obra-prima. Sua vida é como um livro a ser escrito, cheio de possibilidades que vão se expondo conforme segue a narrativa. Narrativa não linear, como pede o fluxo de consciência. Cada capítulo é um novo começo de vida (o dia do seu primeiro beijo, o do nascimento de seu filho, ou o que se encontra como escritor) mas também uma morte, tratada como parte crucial do romance da vida. Nenhum livro é completo sem seu final.

 

O grande desafio da ilustração são as emoções. Grande coisa um desenho bonitinho e proporcional. Mas a profundidade dos olhos mais maduros de Brás não mente. Vê-se a alma por trás de cada traço que faz uma ruga. As ilustrações de abertura de capítulo te fazem querer chegar logo ao próximo só para admirar.

Vencedor do prêmio Eisner e mais vendido da lista do The New York Times ao mesmo tempo, Daytripper alcançou o tão difícil equilíbrio entre sucesso de crítica e sucesso de vendas. Já é um clássico das HQs – e os gêmeos ainda prometem mais.

Velho mundo versus novo mundo ou só Lolita?

Lolita: primeira e última palavra do romance homônimo de Vladimir Nabokov (1955). O europeu Humbert Humbert, pedófilo, se apaixona de maneira incrivelmente ingênua por Dolores Haze (ou Lô, ou Dolly, ou Lolita), menina norte-americana de doze anos, menos culpada mas também menos ingênua que seu velho “pai”. Lolita impressiona pela estrutura impecável e a deliciosa narrativa intimista em primeira pessoa, além da facetas múltiplas que vai adquirindo conforme os capítulos vão passando: primeiro romance romântico lambuzado, então um filme desses de estrada, até que a paranoia de H. H. transforma tudo em uma história de suspense.

Um traço bem interessante em Humbert é a constante justificação de seus modos. A pedofilia, como ele deixa bem claro logo no começo do livro, só pode ser, pensa ele, consequência de seu amor infantil interrompido, quando sua jovem amante Annabel morreu precocemente. Também constata, em seu fluxo de pensamentos, que Lolita é mais safada do que se esperaria: primeiramente ela o seduz, então usa de seu suposto charme para extorquir dinheiro e depois, nem virgem a menina é. Mas, claro, o livro é em primeira pessoa e várias vezes a parcialidade de Humbert é posta em dúvida, não por más intenções já que ele se sente, e sempre se sentiu, culpado, mas pela intensidade de seus sentimentos.

O sentido mais literal do livro é muito bom, sim. Mas, nesses últimos dias, reli a obra com outras ideias na cabeça, mais especificamente a ideia de corrosão do Novo Mundo, as Américas, no caso, EUA, pelo Velho Mundo, a Europa (ou também o contrário, as duas visões são possíveis e, para mim, até complementares). Pensando assim, o jogo novo versus velho teria tudo a ver com o tema de pedofilia. Ambos, Humbert e Dolores, já tem seus desvios morais mesmo antes de se conhecerem, mas os resultados após seus anos juntos seriam irremediáveis para ambos: o adulto tirou da criança sua luz e alegria de vida, e ela, por sua vez, o devastou completamente, o levou a ruína pelo amor que H. sentia.

Em uma nota adicional, após ter lido o original, reli em versão traduzida por Jorio Dauster e me impressionei bastante com a qualidade, recomendo. E, para fechar, um parágrafo interessante do próprio Nabokov sobre Lolita e o fato de este não ser um livro erótico e, ao mesmo tempo, não ter lição moral alguma (dois fatores que aparentemente não se combinam na cabeça de certas pessoas):

Presumo que haja leitores que se excitem com o vocabulário chulo daqueles romances enormes e irremediavelmente banais, datilografados por autores medíocres com os polegares mas caracterizados como “vigorosos” ou “intensos” pelos críticos de plantão. Há boas almas que considerarão Lolita irrelevante porque não lhes ensina nada. Não escrevo nem leio obras de ficção com fins didáticos, e, a despeito da afirmação de John Ray, Lolita não traz nenhuma moral a reboque. Para mim, um romance só existe na medida em que me proporciona o que chamarei grosso modo volúpia estética, isto é, um estado de espírito ligado, não sei como nem onde, a outros estados de espírito em que a arte (curiosidade, ternura, bondade, êxtase) constitui a norma. Não há muitos desses livros.

Capitães da Areia, de Jorge Amado

 O jeitinho que o Jorge Amado conta histórias — independente de estrutura, sintaxe, conteúdo intelectual — é algo que Dostoiévski nenhum jamais soube fazer. Devo perdão à biblioteca por ter deixado algumas marquinhas úmidas no livro, inclusive.

O romance é dividido em três partes, e os meus comentários sobre ele idem. Na primeira delas, “Sob a lua, num velho trapiche abandonado”, eu não me importaria nem um pouco se Jorge só continuasse descrevendo os personagens, para sempre. Cada um dos meninos-homens abandonados, integrantes dos Capitães da Areia, tem sua história, todas lindas, impossível não criar afeição. O leitor é apresentado a dura realidade da cidade baixa lá pela década de 30, na época do início da ditadura getulista. O ambiente em que vivem é o culpado pelos roubos dos meninos, que muito cedo conhecem a maldade e a malícia do mundo. Ainda assim, eles têm uma alma livre.

Na segunda parte, “Noite da grande paz, da grande paz dos teus olhos”, chega Dora, a pequena Maria Bonita de Salvador. Também chega uma angústia suprema, da repressão, do amor e da morte.

E em “Canção da Bahia, canção da liberdade” todo o sentimento de revolução social que vem se argumentando com o decorrer do livro, querendo crescer, finalmente explode. Tanto como cangaceiros, grevistas, pintores (que retratam a situação de miséria dos jovens), os Capitães da Areia amadurecem e pela politização saem da vida de crime pelo crime para pecar só em nome da pátria e da família dos pobres. Não é surpresa, portanto, que o livro foi considerado propaganda comunista e censurado em época de ditadura.

Imagem do filme de Cecília Amado (que estou bem ansiosa para ver, por sinal)

O Processo, de Franz Kafka

“Alguém certamente havia caluniado Josef K. pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum.”

A primeira frase do livro é clara, assim como era claro para K. que sua culpa era nula. Mas isso antes de sua “detenção”.  Na manhã do seu aniversário, ele é surpreendido por dois guardas, encarregados de avisá-lo de que é alvo de um processo. Os guardas são subalternos de hierarquia muito baixa e nada sabem ou podem informar sobre o caso, e na audiência que se segue, e também no inquérito, todos são funcionários de baixo calão que apenas cumprem ordens. Preso na burocracia, K. nunca saberá qual foi seu crime, se é que de fato ele existiu.

O livro é metafórico, o que o torna hermético no sentido de que abre caminhos para infinitas interpretações, todas de certa forma verdadeiras. “A compreensão correta de uma coisa e a má compreensão dessa mesma coisa não se excluem completamente”, como é citado no livro; e se eu ignorasse que a obra é póstuma e escrita sem intenção de ser lida diria que essa frase foi colocada a fim de atordoar o leitor, que tenta encaixar as peças. Em uma rápida busca no Google, fui capaz de encontrar as mais loucas teorias de interpretação, todas interessantes. Mas vou falar aqui da minha própria, que é bem simplória comparada com as outras, mas é a minha percepção da obra.

Primeiramente, existem dois planos de interpretação para esse tribunal estranho, e elas não se excluem ou contradizem de forma alguma. Uma é a “literal”, apesar de não ser puramente assim, mas é o que logo entende-se ao ler as primeiras páginas. O fato de os tribunais estarem localizados sempre acima do povo, separados for cansativas escadarias, ou de estarem presentes ratazanas e ilustrações pornográficas, é obviamente metafórico. Mas a burocracia, a hierarquização, a facilidade de suborno e o conceito de “razão de Estado”  acima de tudo, de modo que esse não deve justificações ao povo, são literais. Os juízes retratam-se como deuses, superiores, acima da esfera da razão mundana. É conhecido o desgosto de Kafka, que já foi advogado, pelo Direito. Também sei, por uma pesquisa histórica breve e não muito aprofundada, que o Império Austro-Húngaro era um estado muito autoritário em um período de tempo ligeiramente anterior à Primeira Guerra Mundial.

A outra interpretação é que esse tribunal é um tribunal da sociedade, no sentido de que os “outros” estão sempre observado, comentando, fofocando e julgando, mesmo sem leis para tal. Várias referências surgem a esse respeito no livro. Quando K. e Titorelli estão conversando e as meninas estão importunando na porta, o pintor diz: “Essas meninas também fazem parte do tribunal”. Como K. fica atônito, ele explica que “tudo pertence ao tribunal”. Ou quando a senhora Grubach faz insinuações sobre a senhorita Bürstner e K. reage de maneira violenta, indignado, pois também se vê, agora que é acusado, como um marginal, e repudia insinuações das quais possivelmente também é alvo. Seu tio fica sabendo do processo via uma sucessão de fofocas, ele “ouviu falar”, como diz, e K. repudia tudo isso. Fica claro como K. se importa com seu status social, com as aparências, ainda mais quando se trata de seu cargo no banco. Mas a partir do momento em que é acusado, mesmo que antes se julgasse inocente, ele vai assimilando a culpa. Esse tribunal da sociedade julga e não se importa em comunicar qual foi o crime do acusado; não há defesa que funcione verdadeiramente pois uma vez formulada uma opinião, ela não muda, e não se importa com argumentos que digam o contrário; a condenação é certa. Também na parte em que Titorelli esclarece um pouco o funcionamento do tribunal, ele cita a absolvição real (impossível), a absolvição provisória (na qual o processo fica pausado, mas os arquivos ainda estão lá para que possam, e provavelmente irão, ser usados contra o réu no futuro) e o processo arrastado (consiste em arrastar o processo muito lentamente, evitando a condenação), conceitos facilmente assimilados com a ideia do tribunal da sociedade.

Quanto mais K. tenta se salvar do absurdo, mais se afunda. A Igreja, como se observa no capítulo Na Catedral, também está ligada a tudo isso, pois é um instrumento julgador muito forte. A relação de K. com as mulheres é depreciada pelo capelão; as mulheres estão sempre presentes na obra, senão como amantes de K., pelo menos como admiradoras, como se algo nele as atraísse. Do capelão, que também faz parte do tribunal, para K.:

– Procuras demasiado o auxílio de estranhos – disse o padre com um ar de desaprovação – e em especial o das mulheres. Não vês que esse não é o verdadeiro auxílio?
– Algumas vezes, mesmo muitas, podia dar-te razão – disse K. –, mas sempre não. As mulheres têm um grande poder. Se eu conseguisse que certas mulheres que conheço trabalhassem em conjunto a meu favor, não tenho dúvidas de que triunfaria, especialmente numa justiça como esta que é quase toda constituída por homens que são uns autênticos doidos por saias. Experimenta mostrar, ao longe, uma mulher ao juiz de instrução, e vê-lo-ás derrubar a mesa e o acusado só para chegar a tempo.

Também em outra fala do capelão para K. fica claro como este perdeu seu anonimato:

– És Josef K. – disse o padre, levantando a mão por cima do parapeito num gesto vago.
– Sim – volveu K., pensando como dantes pronunciava o seu nome com toda a franqueza e como, ultimamente, este era para ele um verdadeiro fardo; agora, pessoas que encontrava pela primeira vez, conheciam-lhe o nome. Como seria agradável só ser conhecido depois de ter sido apresentado.

A última frase do livro se encaixa, senão mais que tudo que citei acima, nesta visão de que K. é marginalizado e consequentemente julgado, de forma obviamente injusta, pela sociedade. Mas apesar de isto ser uma crítica, e não resenha, tenho medo de estragar a grande epifania final de algum leitor desavisado que ainda não tenha lido O Processo.

Como a obra é póstuma e organizada originalmente por Max Brod, amigo de Kafka, é válido observar alguns problemas de continuação. O livro na verdade é composto de fragmentos. Kafka se arrastou por um longo período para escrever a obra, e ainda assim não a finalizou. Às vezes, quando estava escrevendo um capítulo que não fluía, passava para o próximo, deixando-o inacabado. A ordenação dos capítulos também não é certa, e existem erros na ordem proposta por Brod, como por exemplo um capítulo que cita o inverno vem antes de outro que cita o outono. Por isso aconselho a leitura de uma versão que inclua também os capítulos excluídos, não finalizados e as passagens riscadas.

PS.: Estou com vontade de ler estes quadrinhos, apesar de preto e branco não ser bem a minha coisa. Se achar pra vender, comento por aqui.