O Processo, de Franz Kafka

“Alguém certamente havia caluniado Josef K. pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum.”

A primeira frase do livro é clara, assim como era claro para K. que sua culpa era nula. Mas isso antes de sua “detenção”.  Na manhã do seu aniversário, ele é surpreendido por dois guardas, encarregados de avisá-lo de que é alvo de um processo. Os guardas são subalternos de hierarquia muito baixa e nada sabem ou podem informar sobre o caso, e na audiência que se segue, e também no inquérito, todos são funcionários de baixo calão que apenas cumprem ordens. Preso na burocracia, K. nunca saberá qual foi seu crime, se é que de fato ele existiu.

O livro é metafórico, o que o torna hermético no sentido de que abre caminhos para infinitas interpretações, todas de certa forma verdadeiras. “A compreensão correta de uma coisa e a má compreensão dessa mesma coisa não se excluem completamente”, como é citado no livro; e se eu ignorasse que a obra é póstuma e escrita sem intenção de ser lida diria que essa frase foi colocada a fim de atordoar o leitor, que tenta encaixar as peças. Em uma rápida busca no Google, fui capaz de encontrar as mais loucas teorias de interpretação, todas interessantes. Mas vou falar aqui da minha própria, que é bem simplória comparada com as outras, mas é a minha percepção da obra.

Primeiramente, existem dois planos de interpretação para esse tribunal estranho, e elas não se excluem ou contradizem de forma alguma. Uma é a “literal”, apesar de não ser puramente assim, mas é o que logo entende-se ao ler as primeiras páginas. O fato de os tribunais estarem localizados sempre acima do povo, separados for cansativas escadarias, ou de estarem presentes ratazanas e ilustrações pornográficas, é obviamente metafórico. Mas a burocracia, a hierarquização, a facilidade de suborno e o conceito de “razão de Estado”  acima de tudo, de modo que esse não deve justificações ao povo, são literais. Os juízes retratam-se como deuses, superiores, acima da esfera da razão mundana. É conhecido o desgosto de Kafka, que já foi advogado, pelo Direito. Também sei, por uma pesquisa histórica breve e não muito aprofundada, que o Império Austro-Húngaro era um estado muito autoritário em um período de tempo ligeiramente anterior à Primeira Guerra Mundial.

A outra interpretação é que esse tribunal é um tribunal da sociedade, no sentido de que os “outros” estão sempre observado, comentando, fofocando e julgando, mesmo sem leis para tal. Várias referências surgem a esse respeito no livro. Quando K. e Titorelli estão conversando e as meninas estão importunando na porta, o pintor diz: “Essas meninas também fazem parte do tribunal”. Como K. fica atônito, ele explica que “tudo pertence ao tribunal”. Ou quando a senhora Grubach faz insinuações sobre a senhorita Bürstner e K. reage de maneira violenta, indignado, pois também se vê, agora que é acusado, como um marginal, e repudia insinuações das quais possivelmente também é alvo. Seu tio fica sabendo do processo via uma sucessão de fofocas, ele “ouviu falar”, como diz, e K. repudia tudo isso. Fica claro como K. se importa com seu status social, com as aparências, ainda mais quando se trata de seu cargo no banco. Mas a partir do momento em que é acusado, mesmo que antes se julgasse inocente, ele vai assimilando a culpa. Esse tribunal da sociedade julga e não se importa em comunicar qual foi o crime do acusado; não há defesa que funcione verdadeiramente pois uma vez formulada uma opinião, ela não muda, e não se importa com argumentos que digam o contrário; a condenação é certa. Também na parte em que Titorelli esclarece um pouco o funcionamento do tribunal, ele cita a absolvição real (impossível), a absolvição provisória (na qual o processo fica pausado, mas os arquivos ainda estão lá para que possam, e provavelmente irão, ser usados contra o réu no futuro) e o processo arrastado (consiste em arrastar o processo muito lentamente, evitando a condenação), conceitos facilmente assimilados com a ideia do tribunal da sociedade.

Quanto mais K. tenta se salvar do absurdo, mais se afunda. A Igreja, como se observa no capítulo Na Catedral, também está ligada a tudo isso, pois é um instrumento julgador muito forte. A relação de K. com as mulheres é depreciada pelo capelão; as mulheres estão sempre presentes na obra, senão como amantes de K., pelo menos como admiradoras, como se algo nele as atraísse. Do capelão, que também faz parte do tribunal, para K.:

– Procuras demasiado o auxílio de estranhos – disse o padre com um ar de desaprovação – e em especial o das mulheres. Não vês que esse não é o verdadeiro auxílio?
– Algumas vezes, mesmo muitas, podia dar-te razão – disse K. –, mas sempre não. As mulheres têm um grande poder. Se eu conseguisse que certas mulheres que conheço trabalhassem em conjunto a meu favor, não tenho dúvidas de que triunfaria, especialmente numa justiça como esta que é quase toda constituída por homens que são uns autênticos doidos por saias. Experimenta mostrar, ao longe, uma mulher ao juiz de instrução, e vê-lo-ás derrubar a mesa e o acusado só para chegar a tempo.

Também em outra fala do capelão para K. fica claro como este perdeu seu anonimato:

– És Josef K. – disse o padre, levantando a mão por cima do parapeito num gesto vago.
– Sim – volveu K., pensando como dantes pronunciava o seu nome com toda a franqueza e como, ultimamente, este era para ele um verdadeiro fardo; agora, pessoas que encontrava pela primeira vez, conheciam-lhe o nome. Como seria agradável só ser conhecido depois de ter sido apresentado.

A última frase do livro se encaixa, senão mais que tudo que citei acima, nesta visão de que K. é marginalizado e consequentemente julgado, de forma obviamente injusta, pela sociedade. Mas apesar de isto ser uma crítica, e não resenha, tenho medo de estragar a grande epifania final de algum leitor desavisado que ainda não tenha lido O Processo.

Como a obra é póstuma e organizada originalmente por Max Brod, amigo de Kafka, é válido observar alguns problemas de continuação. O livro na verdade é composto de fragmentos. Kafka se arrastou por um longo período para escrever a obra, e ainda assim não a finalizou. Às vezes, quando estava escrevendo um capítulo que não fluía, passava para o próximo, deixando-o inacabado. A ordenação dos capítulos também não é certa, e existem erros na ordem proposta por Brod, como por exemplo um capítulo que cita o inverno vem antes de outro que cita o outono. Por isso aconselho a leitura de uma versão que inclua também os capítulos excluídos, não finalizados e as passagens riscadas.

PS.: Estou com vontade de ler estes quadrinhos, apesar de preto e branco não ser bem a minha coisa. Se achar pra vender, comento por aqui.

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