Alice e o surrealismo

“Alice no País das Maravilhas” e “Alice Através do Espelho”, Lewis Carroll, publicados em 1865 e 1871, respectivamente, são duas obras que não fazem sentido por seu excesso de significado, ao invés da falta dele. Carroll, como matemático apaixonado, encheu suas páginas de problemas de lógica e números, além de jogos de palavras, às vezes em latim, paródias de poemas tradicionais vitorianos… Todas essas informações podem ser bem complicadas de entender em sua totalidade, como por exemplo uma piada sobre “washing classes”, ou no caítulo 2 de “Alice no País das Maravilhas”, quando Alice começa a efetuar multiplicações:

“Deixe-me ver: quatro vezes cinco é doze, e quatro vezes seis é treze, e quatro vezes sete é – oh céus! Eu nunca chegarei a vinte nesse ritmo!”

Essa passagem explora a utilização de diversos sistemas numéricos. Quatro vezes cinco é doze num sistema de dezoito bases, quatro vezes seis é treze num sistema de vinte e uma bases, e quatro vezes sete é catorze num sistema de vinte e quatro bases. A sequência vai aumentando três bases cada vez, o que demoraria muito tempo para a maioria das pessoas perceber. O resultado sempre vai ser menor que vinte, porque depois de 19 o produto seria 1A, 1B, 1C, 1 D…

Por isso aconselho uma releitura, mas na versão “The Annotated Alice”, com comentários de Martin Gardner, que também ajuda a entender contextos da época.

Alice  possui um relação certamente intrínseca – e ao mesmo tempo diferenciada – com o movimento surrealista. Muitos psicólogos, principalmente os que seguem a linha freudiana, veem na obra, além de metáforas que sucumbem ao mundo real, várias coisas que se referem também ao mundo dos sonhos.

Relacionando Alice…

Hieronymus Bosch (pré-surrealista): esse contemporâneo de Jan van Eyck não tinha nada a ver com as pinturas renascentistas e cientificistas à moda de seu tempo. Apesar de tratar de temas como a ambiguidade religiosa, Bosch usava figuras fantasiosas, impossíveis e improváveis.

“Jardim das Delícias” de Bosch assemelha-se a um certo País das Maravilhas

Frida Kahlo (surrealista): as obras de Frida valorizam o inconsciente, assim como as temáticas mais freudianas em Alice. Seus quadros muitas vezes são sombrios, e esse lado sombrio faz parte sim do País das “Maravilhas”. A tradução para o português não passa exatamente a ideia do original em inglês (acho uma boa tradução, mas me sinto na obrigação de ressaltar esse aspecto). “Wonderland”, em inglês, deixa uma ideia mais aberta a que tipo coisas vivem nesse mundo: coisas bizarras, com certeza, mas não se sabe apenas pelo título se são boas ou más necessariamente. Já em português, há a falsa impressão de coisas boas, “maravilhosas”.  Não é bem assim, como pode-se observar nas várias partes em que Alice se sente perdida e assustada.

“Meu vestido pendurado ali”, Frida Kahlo. Um tanto quanto sombrio e muito influenciado pelo mundo dos sonhos.

Dr. Seuss (literatura nonsense e infantil): eu sempre vejo Dr. Seuss (ou Theo LeSieg, seu outro pseudônimo) como um Lewis Carroll moderno. Assim como Carroll, ele não escrevia suas histórias infantis com uma moral na cabeça. Apesar disso, era mais politizado em seus livros que o primeiro.

Dr. Seuss desenhando O Grinch, e um de seus personagens “The Cat in the Hat”.

John Lennon (literatura nonsense): se no início desse texto eu disse que Alice não fazia sentido por excesso de significado, os contos de John Lennon são o extremo oposto: não tem significado algum. Mas isso não empobrece seu trabalho literário. Sua liberdade de pensamento artístico impressiona e faz valer a pena a leitura. Ainda assim, meu “poema” preferido não está entre seus textos publicado e sim entre suas músicas gravadas: “I am the Walrus”.

Caricatura de John Lennon, e ele nas gravações de “I am the Walrus”

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