Mais do bom e velho Machado

Perdoem a overdose machadiana, mas eu tenho uma meta: ler a obra completa de Machado de Assis. E é muito conto. Meus preferidos eu morro de vontade de falar sobre, inclusive já falei de alguns, e ainda tem muita coisa boa e válida que eu vou achando conforme vou lendo. Para não ficar tão longo e ao mesmo tempo poder compartilhar tudo que eu quero compartilhar, vou fazer um apanhadão de alguns contos que tem me cativado ultimamente.

As Academias de Sião: a princípio chama a atenção por ser diferente do que a gente está acostumado em termos de Machado, mas na verdade não foge muito, não. Se passa na China e utiliza algumas alegorias hindus (nossa, isso é Machado?), e fala sobre a arrogância, prepotência e ignorância humana (ah, agora sim). É uma sátira com as academias, tanto científicas quanto literárias, comuns no final do século XIX (oi, ABL). Os intelectuais de Sião indagam-se, observando seu rei de personalidade emotiva e traços delicados, porque alguns homens tem alma de mulher e algumas mulheres tem alma de homem. Algumas academias creem que a alma é neutra e nada tem a ver com o exterior. Já uma outra academia acredita que existem almas femininas e masculinas, e ocasionalmente elas vão parar nos corpos errados. Essa última academia, certa de seu veredicto, aniquila barbaramente os intelectuais que acreditam na alma neutra. Mas além da prepotência necessária para agir com tamanha violência, os membros da academia vencedora também são prepotentes com seus colegas acadêmicos. Juntos, julgam-se a luz do mundo. Mas separados, são cobras, falando mal um dos outros.

Meio que paralelamente também se discute a questão do homem feminino/mulher masculina. O rei feminino e Kinnara, que é uma mulher masculina, trocam de corpos. Mas Machado não quer provar tese nenhuma – ele apenas joga o enredo para que o leitor pense o que quiser.

A Cartomante: Clássico. Além do bem machadiano (traição com a esposa do melhor amigo etc.), é bem interessante a temática do supersticioso. Já começa citando Hamlet (“há mais coisas entre o céu e a terra, horácio, do que sonha a nossa vã filosofia”), enquanto Camilo debocha de Rita (sua amante) por ter consultado uma cartomante. Mas quando vem a necessidade, Camilo, antes tão fechado, se sente muito tentado a visitar a tal vidente, e acaba indo. É incrível como o ser humano ama acreditar no que é reconfortante quando se sente indefeso (superstições, religiões…). Ótimo final, bem frio.

Noite de Almirante: Adoro. Triângulo amoroso de novo, mas dessa vez não é amargo. É doce e sutil. O marinheiro Deolindo e Genoveva juram que, durante os 10 meses que esse ficará longe, irão esperar um pelo outro. No dia da chegada, Deolindo vem ansioso pela sua merecida “noite de almirante”, que não acontece. O conto vai sempre trazendo a expectativa de tragédia, mas esta não vem, fica só na melancolia do jeito ingênuo, inocente e cativante da Genoveva.

Baixar em domínio público: As Academias de Sião, A Cartomante e Noite de Almirante.

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O Espelho, de Machado de Assis

 "Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas...
- Duas?
- Nada menos de duas almas"

Em uma casa em Santa Teresa, homens discutem “os mais árduos problemas do universo”, como diz Machado com ironia. Um deles, casmurro, não participa da discussão até o momento em que é intimado a falar. O homem exige que seus ouvintes escutem calados – nem conjetura, nem opinião – pois ele está acima de discussões, e só então começa a falar. Ele defende a existência de duas almas: uma que olha de dentro pra fora, e outra que olha de fora para dentro. Exemplifica com Shylock, o agiota judeu da peça O Mercador de Veneza (Shakespeare), que perdeu seu dinheiro e não conseguiu mais viver, pois aquele era sua alma exterior. Também narra sua própria história, de quando foi nomeado alferes e isso se tornou sua alma exterior.

Esse conto está disponível em domínio público aqui.

Como sempre, Machado é pessimista. O ser humano é mascarado, fútil, vaidoso. A alma exterior é apresentada com igual, ou maior em alguns casos, valor comparada à alma interior. As aparências são essenciais.

Ilustrações de Fernando Vilela

 O Espelho é um conto-teoria, talvez até o mais célebre conto-teoria do Machado. Quando se tira tudo de exterior num homem sobra apenas ele, simples, e portanto tímido e covarde.

O Alienista (Machado de Assis)

O primeiro post deste blog não poderia ter um tema melhor. Primeiro uma breve introdução sobre os contos machadianos: Machado de Assis, um dos melhores romancistas que já li, mas acima disso o contista por quem mais me apaixonei, escreveu cerca de 200 contos.  Sua produção inicial tinha ar romântico, mas conforme vai amadurecendo seu estilo realista vai se lapidando e revelando a verdadeira visão do autor. Entre os temas recorrentes em seus contos estão o adultério, os ciúmes, o sonho, a sociedade elitista, a complexidade psicológica das personagens. Esse último é a temática principal em O Alienista e será profundamente explorado por Machado.

Apesar de ser considerado uma novela por alguns críticos, a maioria entra em acordo de que se trata de um conto devido à sua estrutura. Publicado em 1882, pertence ao início do segundo período machadiano. Simão Bacamarte, homem muito dedicado às ciências, decide estudar mais profundamente a loucura humana e para tal constói um hospício a fim de observar as deficiências das faculdades mentais. Surge um problema: não existe uma linha sólida entre loucura e lucidez, porém Bacamarte, no auge do seu cientificismo, pensa entender perfeitamente o que acontece na mente humana.

A obra coincide em tempo histórico com os primórdios da psicanálise freudiana, e inclusive antecipa essa temática psicológica muito comum para o início do século XX.

Nas artes visuais, entre os artistas que conversam com esse conto está Manet. Suas pinturas são crus e verídicas à moda do realismo da época. Porém o pintor cujas percepções sociais e consequentemente artísticas mais coincidem com Machado, não só em O Alienista mas em diversos contos e romances da segunda fase, é Gustave Courbet. Também realista, suas primeiras pinturas retratavam cenas do cotidiano de trabalhadores, voltando-se bem mais para as classes baixas do que Machado, porém pode-se inferir um certo olhar pessimista. Algumas de suas pinturas revelam conflitos psicológicos comparáveis a O Alienista.

Na escultura, relaciona-se com Rodin, principalmente OPensador.

“Auto-Retrato com Cão”, “Auto-Retrato” e “Os Cortadores de Pedra”, todos de Gustave Courbet

Recomendo para os amantes da ilustração (como eu), a versão novela gráfica de O Alienista, por Fábio Moon e Gabriel Bá.