O Espelho, de Machado de Assis

 "Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas...
- Duas?
- Nada menos de duas almas"

Em uma casa em Santa Teresa, homens discutem “os mais árduos problemas do universo”, como diz Machado com ironia. Um deles, casmurro, não participa da discussão até o momento em que é intimado a falar. O homem exige que seus ouvintes escutem calados – nem conjetura, nem opinião – pois ele está acima de discussões, e só então começa a falar. Ele defende a existência de duas almas: uma que olha de dentro pra fora, e outra que olha de fora para dentro. Exemplifica com Shylock, o agiota judeu da peça O Mercador de Veneza (Shakespeare), que perdeu seu dinheiro e não conseguiu mais viver, pois aquele era sua alma exterior. Também narra sua própria história, de quando foi nomeado alferes e isso se tornou sua alma exterior.

Esse conto está disponível em domínio público aqui.

Como sempre, Machado é pessimista. O ser humano é mascarado, fútil, vaidoso. A alma exterior é apresentada com igual, ou maior em alguns casos, valor comparada à alma interior. As aparências são essenciais.

Ilustrações de Fernando Vilela

 O Espelho é um conto-teoria, talvez até o mais célebre conto-teoria do Machado. Quando se tira tudo de exterior num homem sobra apenas ele, simples, e portanto tímido e covarde.