Bonequinha de Luxo (Truman Capote)

Muitos podem julgar esse livro com base no filme de Blake Edwards , pensando que se trata de um romance aguado. Odeio o final do filme (se não ele todo), que não tem nada a ver com a Holly de Truman Capote. Esse, inclusive, também diz não gostar da adaptação para o cinema.

Dito isto, comecemos. A história inicia em um bar em Nova York, onde o narrador anônimo e o bartender discutem sobre o atual paradeiro de uma garota nada usual que conheceram há 15 anos atrás. Holly Golightly esconde por trás de todo seu glamour um passado pobre e caipira. Nascida com o nome peculiar de Lula Mae Barnes, no interior do Texas, com 14 anos casou-se com Doc Golightly. Porém, nunca satisfeita, abandonou sua família e fugiu para Nova York, simples assim. E essa é a essência de Holly, livre e selvagem.

Contexto Histórico: publicado em 1958, o enredo se passa na década de 40. O principal acontecimento era a Segunda Guerra Mundial, que obrigou muitas pessoas a viver mais simplesmente. Porém, para uma certa elite estadunidense, a guerra trouxe muitos lucros e é no meio dessa minoria que vive Holly. A música mais popular era o swing, que embalava as festas no apartamento de Holly. Entre os escritores populares, destacam-se Antoine de Saint-Exupéry, George Orwell e Ernest Hemingway, esse inclusive é citado por Holly, mas de maneira um tanto quanto pejorativa, um tanto quanto ingênua.

Contexto Artístico:  Truman  Capote foi fortemente influenciado pelo Pop Art para escrever Bonequinha de Luxo. O figurativismo, a linguagem de propaganda, as imagens da sociedade de consumo e da mídia se encaixam com a vida nova-iorquina de Holly. Inclusive o próprio título do livro (em inglês, Breakfast at Tiffany’s) tem tudo a ver com essa sociedade de consumo. Holly se sente bem ao ir a loja Tiffany’s, que é um símbolo de poder econômico e status. Nomes como Andy Warhol e Roy Lichtenstein são os destaques desse movimento.

   

“Look Mickey” de Roy Lichtenstein, as famosas “Marilyn” de Andy Warhol, a capa do CD da banda The Velvet Underground feito por Andy Warhol (que era o mentor intelectual da banda), e ilustração de Diana Sudyka em estilo semelhante ao Pop Art

Reflexões sobre o livro (para quem já leu): se você ainda não leu, pare aqui. No desfecho, “Fred” promete voltar e procurar o gato. O gato, assim como Holly, representa as coisas selvagens, e as coisas selvagens, como disse Holly, não devem ser amadas. “Esse foi o erro de Doc. Sempre voltava para casa com uma coisinha selvagem. Um falcão de asa machucada. Até um lince crescido com pata quebrada. Mas não dá para entregar o coração a um bicho desses: quanto mais você dá, mais forte ele fica. Até que fica forte o bastante para voltar para o mato”.

Quando Holly sai do táxi, ela diz estar com medo, finalmente. Medo de “não saber o que é seu até a hora em que você joga fora”, e que isso continuasse para sempre. Essa sensação é própria das coisas selvagens, pois elas não conseguem achar um lugar a que pertençam.

Se ela achou seu lugar, não se sabe. Mas, um dia, o narrador encontra o gato deitado confortavelmente numa sacada de apartamento. O gato agora provavelmente tinha um nome, ele achou seu lugar, foi domesticado, mas ainda é livre o suficiente para tomar sol na janela. Essa cena é a esperança das coisas selvagens, elas podem sim achar um lugar a que pertençam e criar vínculos, sem se engaiolar. Basta apenas procurar.