Retalhos, de Craig Thompson

 Vencendor de três prêmios Harvey (melhor artista, melhor graphic novel original e melhor cartunista) e dois prêmios Eisner (melhor graphic novel e melhor escritor/artista), Retalhos é simplesmente arrebatador. Craig Thompson conta a sua própria história, desde criança até o final da adolescência, sua relação com os pais, o irmão, a religião, seu primeiro amor. Tudo isso de um jeito dolorosamente sincero: as formas, os traços certeiros de nanquim e até a neve que nunca acaba na pequena cidade no meio do nada transpiram a delicadeza da história a ser contada.

A puberdade de Thompson é marcada pelo temor a deus, transmitido continuamente por seus pais, e que inevitavelmente entra em conflito com seus desejos. Do acampamento da igreja com seus cultos até as aulas de ensino religioso e seus professores intimidadores, Craig se vê perdido entre dúvidas e inconsistências, incapaz de exercitar a pureza que exigem dele.

Sufocado em expectativas, acaba conhecendo Raina, uma garota leve e fluída, vivaz e impulsiva. A relação dos dois mudará as visões de Craig sobre o céu, deus e o amor.

O Craig é muito mais quadrado que a Raina – em todos os sentidos. E nas míseras duas semanas que ele passa com ela, as experiências compartilhadas são suficientes para balançar o seu mundo. Ele descobre que existe toda uma gama de outras opções entre céu e inferno. Ele descobre a sensação de compartilhar um mundo debaixo das cobertas nas noites de nevasca.

E em relação a dormir juntos: páginas e páginas são dedicadas a explicar essa sensação estranha e maravilhosa. Em mil e uma posições diferentes, pode se dizer que Craig Thompson é um PhD em desenhos de “conchinha”.

Retalhos é a arte de emocionar com uma história simples e sincera. Em suas páginas, dá pra sentir a vulnerabilidade do autor, todo entregue e aberto para ser lido.

Asterios Polyp, de David Mazzuchelli

Basta folhear Asterios Polyp para entender porque é um sucesso de críticas. As cores maravilhosamente selecionadas brincam de se combinar com suas análogas e complementares, compondo a paleta perfeita para cada par de páginas, que por sua vez compõem a paleta perfeita para o livro. Após essa primeira impressão, paro para observar mais atentamente os traços certeiros que desenham personagens bem elaborados. Está decidido, é esse mesmo. Passo no caixa e pago. E Asterios Polyp não precisou nem de meio minuto pra me convencer.

O Asterios do título é um arquiteto bem sucedido, mas “de papel”, termo utilizado para designar um arquiteto cujos projetos nunca são construídos. A história se divide por dois pontos de vista intercalados: o de Asterios e o de Ignazio. Ignazio é o irmão gêmeo do protagonista que não sobreviveu ao parto. Ele representa a dualidade e a simetria, tão preciosas para o irmão, que foi perdida. Através dele ficamos sabendo do passado de Asterios, um homem que segue à risca a regra da utilidade em sua vida – odeia enfeites, são desnecessários -, que enxerga o mundo em linhas retas, cheio de si. Asterios já foi casado com Hana, uma mulher delicada e fluída, a quem constantemente ofuscava e de quem inevitavelmente se divorciou. Já a história que o próprio arquiteto nos conta é uma história de mudanças. Inicialmente sozinho na vida, um incêndio destrói seu apartamento, deixando-o perdido. Levando apenas três objetos que conseguiu resgatar, foge do mundo que conhece e vai morar em uma cidade do interior, trabalhando como mecânico e morando na casa de seu patrão.

  Todos que leram Asterios Polyp tem que admitir que o fizeram por causa da arte de tirar o fôlego. Mas a história é colocada de um modo muito interessante, criando equilíbrio entre os elementos dos quadrinhos. David Mazzuchelli sabe muito bem os recursos que tem, e utiliza todas as suas possibilidades para extrair o máximo deles.