Blog de quadrinhos!

Um aviso rápido: quem gosta de quadrinhos deveria ir me seguir lá no meu novo blog, o cora comics! Eu costumava resenhar quadrinhos aqui, mas eu queria falar mais de quadrinhos e também sobre gibis, artes visuais, etc, então agora tudo que tenha imagens vai pro outro blog (: Espero que, com o tempo, tudo fique mais organizado.

(E estou lendo um livro que já dá pra ver que vai dar uma linda de uma resenha. Só dizendo. http://pagsocial.com/r/7YO.aspx)

Prêmio Eisner: webcomics

Com a Comic-Con de San Diego batendo na porta, começa a corrida contra o tempo pra ler o máximo de títulos indicados ao prêmio Eisner. O meu prêmio de quadrinhos preferido tem fama de revelar artistas novos, histórias fresquinhas e futuros clássicos. Diferente dos anos passados, este ano as gigantes DC e Marvel saíram de foco, e a mais alternativa Fantagraphics e autores independentes conquistaram seus lugares. Eu tenho tentado finalizar a leitura dos indicados às grandes categorias (melhor graphic album, melhor escritor/artista, melhor série contínua), mas como eu nunca tinha ouvido falar da maioria dos títulos – o que acho ótimo, claro -, ainda falta bastante coisa. Só tinha uma categoria na qual eu já estava um pouco mais avançada na época da divulgação dos concorrentes: as minhas amadas webcomics <3.

Webcomics são lindas por definição. A internet, esse lugarzinho mágico, permite que qualquer artista publique qualquer coisa para que qualquer pessoa possa ler. Simples e eficiente. Daí surgem obras lindas para todos os gostos, com muitas opções fora do monopólio das grandes editoras.

Dito isso, vamos à lista de indicados e minha breve opinião sobre cada um deles:

OUR BLOODSTAINED ROOF, de Ryan Andrews

Uma história curta e bem interessante; Our Bloodstained Roof não é uma séria contínua como os outros títulos. A arte é linda: pintada a nanquim mas suave, com o vermelho destacado por motivos claros. O jeito de desenhar as crianças, a história meio triste meio bonitinha e o tom de relato da infância me lembrou Retalhos, do Craig Thompson, que resenhei há alguns dias.

O enredo é meio excêntrico, não é o tipo de coisa que agrada qualquer um. Ainda assim, eu gostei. Me abriu os olhos para o Ryan Andrews. Depois de ter lido Our Bloodstained Roof, fui checar o site do autor e descobri várias coisas bonitas e promissoras. Já tinha ouvido falar da série Sarah and the Seed – a história de Sarah, que dá a luz a uma semente ao invés de a um bebê -, que foi indicada ano passado, e agora comecei a ler e é uma história bem sensível. Lá no site dele também tem um outro quadrinho curto legal, sem falas, e o preview de um quadrinho maior que parece bom.

O meu veredito (apenas com fins de enxerimento e bisbilhotice):

– Desenhos: 7

– Cor: 7

– Construção visual: 7

– Enredo: 4

ANT COMIC, de Michael DeForge

A arte de Ant Comic é MUITO LEGAL. Mesmo. Acho que já vale a pena só por isso. O Michael DeForge (que também é desenhista e escritor de Hora de Aventura!) tem um estilo bem gráfico, geométrico e todo coloridão.

Ant Comic são várias historinhas cômicas quase independentes entre si, mas que, na minha opinião, são melhor lidas da mais velha até a mais nova. Mas… sei lá. Muitas vezes acontece de eu não engolir muito bem o senso de humor delas. Sinceramente, prefiro outros trabalhos do DeForge.

– Desenhos: 10

– Cor: 10

– Construção visual: 7

– Enredo: 1

BANDETTE, de Colleen Coover e Paul Tobin

Pra mim ficou claro que Bandette é, entre todos os cinco, o melhor no quesito entretenimento. Bandette é uma trapaceira ardilosa, que lidera um grupo de justiceiros – a não ser quando o crime é bom demais para resistir. A arte de Coover é boa, mas sem tirar o foco da história. Bandette é daqueles quadrinhos difíceis de parar de ler. Infelizmente é o único dos cinco que não é gratuito, e cada volume custa 0,99 doletas na Comixology.

Do casal Coover e Tobin também saiu Gingerbread Girl, que tem um estilo parecido com Bandette – só que em preto e branco. Eu também admiro muito os trabalhos que a Coover fez na Marvel.

– Desenhos: 9

– Cor: 9

– Construção visual: 7

– Enredo: 10

IT WILL ALL HURT, de Farel Dalrymple

Bem lúdicos, os desenhos de It Will All Hurt são lindos, talvez até os melhores entre os indicados. A história é como um sonho (ou pesadelo): meio louca, meio triste, meio boba. O Dalrymple já publicou até a parte 4, e por enquanto o enredo ainda não tomou forma definida, mas o público já conhece personagens bem legais, como a Almendra, o Leon e o Gato Gris. Quem gosta de ficção científica e fantasia deveria ir dar uma checada.

– Desenhos: 10

– Cor: 9

– Construção visual: 10

– Enredo: 5

OYSTER WAR, de Ben Towle

E por último, uma história com uma estrutura mais tradicional em relação às outras. Os desenhos do Ben são legais, eu adoro as feições dos personagens. Oyster War é a história do Capitão Bulloch e sua tripulação inusitada contra seus arquirrivais, o pirata Fink e seus homens. A ação tá começando pra valer só agora, e tá imperdível: tem navios, magia, lendas e Davy Jones. Mas, na minha opinião, a história demorou um pouquinho pra esquentar. Então a dica é: não desista no primeiro capítulo.

– Desenhos: 9

– Cor: 9

– Construção Visual: 10

– Enredo: 7

Os meus favoritos são os três últimos, mas ficou bem difícil escolher só um. Oyster War é o coringa, que não tem quem não goste; Bandette é o que tem mais leitores; It Will All Hurt tem leitores parecidos com o do vencedor do ano passado, Battlepug. Bem acirrado.
Como o público é quem dá o voto final, minha aposta vai para… Bandette! Sem muita certeza, mas acho que se eu não escolhesse nenhum, não tinha graça. Alguém mais arrisca um palpite?

PS.: acertei ;)

Retalhos, de Craig Thompson

 Vencendor de três prêmios Harvey (melhor artista, melhor graphic novel original e melhor cartunista) e dois prêmios Eisner (melhor graphic novel e melhor escritor/artista), Retalhos é simplesmente arrebatador. Craig Thompson conta a sua própria história, desde criança até o final da adolescência, sua relação com os pais, o irmão, a religião, seu primeiro amor. Tudo isso de um jeito dolorosamente sincero: as formas, os traços certeiros de nanquim e até a neve que nunca acaba na pequena cidade no meio do nada transpiram a delicadeza da história a ser contada.

A puberdade de Thompson é marcada pelo temor a deus, transmitido continuamente por seus pais, e que inevitavelmente entra em conflito com seus desejos. Do acampamento da igreja com seus cultos até as aulas de ensino religioso e seus professores intimidadores, Craig se vê perdido entre dúvidas e inconsistências, incapaz de exercitar a pureza que exigem dele.

Sufocado em expectativas, acaba conhecendo Raina, uma garota leve e fluída, vivaz e impulsiva. A relação dos dois mudará as visões de Craig sobre o céu, deus e o amor.

O Craig é muito mais quadrado que a Raina – em todos os sentidos. E nas míseras duas semanas que ele passa com ela, as experiências compartilhadas são suficientes para balançar o seu mundo. Ele descobre que existe toda uma gama de outras opções entre céu e inferno. Ele descobre a sensação de compartilhar um mundo debaixo das cobertas nas noites de nevasca.

E em relação a dormir juntos: páginas e páginas são dedicadas a explicar essa sensação estranha e maravilhosa. Em mil e uma posições diferentes, pode se dizer que Craig Thompson é um PhD em desenhos de “conchinha”.

Retalhos é a arte de emocionar com uma história simples e sincera. Em suas páginas, dá pra sentir a vulnerabilidade do autor, todo entregue e aberto para ser lido.

Asterios Polyp, de David Mazzuchelli

Basta folhear Asterios Polyp para entender porque é um sucesso de críticas. As cores maravilhosamente selecionadas brincam de se combinar com suas análogas e complementares, compondo a paleta perfeita para cada par de páginas, que por sua vez compõem a paleta perfeita para o livro. Após essa primeira impressão, paro para observar mais atentamente os traços certeiros que desenham personagens bem elaborados. Está decidido, é esse mesmo. Passo no caixa e pago. E Asterios Polyp não precisou nem de meio minuto pra me convencer.

O Asterios do título é um arquiteto bem sucedido, mas “de papel”, termo utilizado para designar um arquiteto cujos projetos nunca são construídos. A história se divide por dois pontos de vista intercalados: o de Asterios e o de Ignazio. Ignazio é o irmão gêmeo do protagonista que não sobreviveu ao parto. Ele representa a dualidade e a simetria, tão preciosas para o irmão, que foi perdida. Através dele ficamos sabendo do passado de Asterios, um homem que segue à risca a regra da utilidade em sua vida – odeia enfeites, são desnecessários -, que enxerga o mundo em linhas retas, cheio de si. Asterios já foi casado com Hana, uma mulher delicada e fluída, a quem constantemente ofuscava e de quem inevitavelmente se divorciou. Já a história que o próprio arquiteto nos conta é uma história de mudanças. Inicialmente sozinho na vida, um incêndio destrói seu apartamento, deixando-o perdido. Levando apenas três objetos que conseguiu resgatar, foge do mundo que conhece e vai morar em uma cidade do interior, trabalhando como mecânico e morando na casa de seu patrão.

  Todos que leram Asterios Polyp tem que admitir que o fizeram por causa da arte de tirar o fôlego. Mas a história é colocada de um modo muito interessante, criando equilíbrio entre os elementos dos quadrinhos. David Mazzuchelli sabe muito bem os recursos que tem, e utiliza todas as suas possibilidades para extrair o máximo deles.




Logicomix: uma jornada épica em busca da verdade

Na Oresteia, de Ésquilo, Atena, deusa da sabedoria e da estratégia, utiliza sua lógica para resolver uma questão complicada sem recorrer à figura da autoridade, comum nos sistemas anteriores: inventa o júri popular. Desde a Grécia Antiga, o homem busca a difícil definição de raciocínio válido, e quando o conceito é tão volátil, é mesmo natural que a tarefa seja delegada apenas a deuses. Mas no século XX a ciência da Lógica cresce realmente, de maneira irônica entre guerras mundiais e crises. Bertrand Russell, Gottlob Frege, David Hilbert, Kurt Gödel, Ludwig Wittgenstein, John von Neumann, entre outros pensadores, guiam Logicomix na sua “jornada épica em busca da verdade”, como diz o subtítulo.

Bertrand Russell, ainda jovem, descobre a matemática e a eterna ambiguidade que ela traz na sua vida: por um lado a promessa de uma sociedade racional oferece conforto a um menino tão cheio de incertezas; por outro, o medo da loucura, tão contrário à Lógica mas tão comum em cientistas da área. Mais tarde, na universidade, descobre que a Matemática se encontra em crise. Os matemáticos da época apoiam-se em pilares que se apoiam em outros pilares que por sua vez se apoiam em mais alguns pilares qualquer, mas no final tudo isso está empilhado em cima do vazio, ruindo. São axiomas vazios. Russell, alucinado, passa boa parte de sua vida indo atrás dos fundamentos que estão faltando.

As ilustrações fortes, firmes e limpas de Alecos Papadatos e Annie di Donna impressionam primeiramente pela finalização impecável. A construção dos personagens, em se tratando de pessoas reais, também é ótima e divertida (exemplo: pesquisa de personagem do Bertrand Russell).

Estes quadrinhos não pretendem ser um manual de lógica para principiantes, longe disso. É uma história, como tantas outras, sobre pessoas e suas paixões – não se deixem enganar pelos personagens matemáticos. Uma história, inclusive, ficcional, mas na maior parte do tempo muito justa com a realidade. Genial. No final da Oresteia, as Fúrias dizem: “regozijai-vos, cidadãos felizes que apreciam a verdadeira sabedoria!”. Felizes eu não sei, loucos talvez, mas regozijai-vos com Logicomix.

Logicomix: uma jornada épica em busca da verdade, de Apostolos Doxiadis e Christos H. Papadimitriou, com arte de Alecos Papadatos e Annie di Donna. 347 páginas. Editora Martins Fontes.

Persépolis, de Marjane Satrapi

Marjane Satrapi cresceu perdida entre revoluções, guerras e ideologias. A menina iraniana, bisneta de um imperador do país, foi obrigada a encarar sua eterna dicotomia desde cedo: os pais sempre a ensinaram valores liberais e de esquerda, mas bastava olhar para fora de casa para se deparar com o extremismo religioso. Vivenciou o regime do Xá, sua queda via revolta popular e gradual transformação em ditadura islâmica, a guerra Irã-Iraque. Por meio dos quadrinhos, Marji conta sua história em francês mesmo, para os ocidentais, e faz finalmente com que se entenda o que é o Irã.

Quando pequena, Marji se via ligada a religião de um jeito estranho: queria ser profeta. Apesar de sua criação liberal, o regime a influenciava. Mas certas coisas ela não podia deixar de notar, como a sensação de incômodo quando andava no Cadillac chique da família, ou sua aflição de ver que a empregada da casa tem de mentir que é sua irmã para namorar o vizinho. Mas a menina cresce e começa a entender melhor as coisas. Sua pretensões religiosas desaparecem. Daí pra frente a situação começa a ficar ainda mais delicada no Irã. Seu tio Anuch, revolucionário e motivo de orgulho para ela, é executado pela ditadura. A guerra esquenta. A cultura do mártir se desenvolve. Os pais Satrapi não veem outra escolha a não ser mandar a filha para fora. Na Europa, Marji se descobre livre. Mas lá é uma estrangeira, uma oriental. Já no Irã, é considerada ocidental demais.

Marjane se utiliza de um traço infantil em preto e branco. Uma coisa meio xilogravura. Poderia ter sido mais realista, mas não ia conseguir chocar tanto. Os diálogos são preenchidos de graça com um recurso semelhante. Se por um lado existe a guerra e o terror, Persépolis também consegue divertir, fazendo piada das pequenas coisas.


Em 2007, a autobiografia virou um longa-metragem animado, do qual eu gostei bastante. É visualmente bem fiel ao livro, até porque é dirigido pela própria Marjane. Explora alguns recursos a mais, como a utilização de cores em algumas partes, o que é bem útil ao propósito do longa. Mas as melhores partes ficaram no livro mesmo.