“Reparação” e a natureza da escrita

Leitura obrigatória para todos os escritores, críticos e leitores ávidos. “Reparação”, de Ian McEwan  é um dos meus romances favoritos e o meu favorito do autor, então não esperem nem um pouco de imparcialidade (afinal, isso aqui é um blog). O engraçado desse livro é que li umas 20 páginas e desisti dele – eu raramente faria isso com livro algum, a curiosidade não me permite. Mas, por trás da lingugagem bem escolhida e dos interessantes conflitos psicológicos da jovem Briony nas páginas iniciais, eu previa um final chato e açucarado. A ideia que eu tive no meu primeiro contato com a obra foi mais ou menos assim: numa casa de campo na Inglaterra de 1935, Cecilia, de classe média alta, se apaixonaria por Robbie, filho da empregada da casa, e os dois viveriam seu amor proibido, com a desaprovação da família de Cecilia, etcetera, etcetera, muito chato, muito clichê.

Como podem perceber, eu mudei de ideia. Alguns meses depois, numa biblioteca, o livro estava lá, em cima de uma mesa, olhando pra mim – eu comecei a ler mais algumas páginas e me apaixonei. Um começo ruim, mas o resto compensa, será? Não, não. Nem de longe. Um começo brilhante. Conforme a leitura progride, as intenções do começo vão ficando claras, até que, quando você termina o livro, já está pensando na genialidade de McEwan – que começou um romance nada óbvio da maneira mais óbvia possível. Talvez o conceito dessa tal genialidade seja meio difícil de entender assim, ou até difícil de explicar. Reparação é um livro que vai do impressionismo ao realismo, com maestria.

Briony, a irmã caçula dos Tallis, tem 13 anos e é uma escritora prodígio. Em busca de inspiração para suas obras, ela acaba testemunhando cenas, que do seu ponto de vista ingênuo, são bárbaras. Sua irmã, Cecilia, e o filho da empregada, Robbie, discutem na beira de uma fonte na propriedade dos Tallis. Briony, intrigada, assiste à cena da janela, sem que os dois percebam. Na verdade, Cee e Robbie, no auge de sua tensão sexual, brigavam e acabaram quebrando um caro vaso da família, que Cee pretendia encher de água. Irritada, ela tira a roupa para mergulhar na fonte e resgatar os pedaços do vaso. Após mais alguns desencontros que fazem Briony pensar o pior, num jantar na casa dos Tallis, a caçula surpreende Robbie e Cee na biblioteca, transando. Pronto, sua opinião foi formada: Robbie só pode ser um maníaco sexual. E quando Lola, prima dos Tallis, é estuprada nos fundos da propriedade e não sabe dizer quem é o culpado, Briony junta as “peças” na sua cabeça e julga que o criminoso só pode ter sido Robbie. Conforme a menina cresce e amadurece, vai percebendo que sua acusação era falsa, porém as consequências vão repercurtir por toda sua vida.

McEwan usa a relação entre livro e autor e os diversos planos de realidade (a histórica, nossa realidade; a ficcional porém real no mundo de Briony; e a ficcional criada por Briony em seu livro) para discutir o papel do escritor e a natureza da escrita. Quem dará o perdão ao novelista, se ele é o criador, o deus da sua obra, e não há ninguém superior para recorrer?

 

Cenas do filme: do impressionismo das cenas bucólicas e românticas ao realismo da guerra.

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